Lucas 15
No contexto imediato, Lucas 15 se abre com a crítica dos fariseus e escribas, incomodados porque Jesus "recebia pecadores e comia com eles", e é em resposta a isso que o Mestre conta as três parábolas em sequência. A preocupação religiosa com a pureza, com a separação entre “justos” e “pecadores”, é confrontada por um Deus que se alegra justamente quando o pecador se aproxima, e não quando se mantém distante. Assim, as três histórias formam uma só defesa do ministério de Jesus junto aos marginalizados, legitimando Sua prática de mesa como sinal do Reino que acolhe, perdoa e restaura.
Na parábola da ovelha perdida, a figura central é o pastor que, tendo cem ovelhas, deixa as noventa e nove no deserto para buscar a que se perdeu até encontrá-la. A ovelha parece se perder “do lado de fora”, num campo aberto, e há aqui a imagem de alguém que se afasta sem plena consciência de sua situação, incapaz de encontrar sozinho o caminho de volta. Quando o pastor a encontra, coloca-a sobre os ombros e volta para casa com alegria, chamando amigos e vizinhos para celebrar, e Jesus interpreta essa alegria dizendo que há júbilo no céu por um pecador que se arrepende.
A dracma perdida, por sua vez, desloca a cena do campo para dentro de casa: uma mulher que tem dez moedas perde uma, acende a candeia, varre e procura diligentemente até achar. Se na narrativa anterior o ambiente era o campo aberto e o protagonista um pastor, agora entramos na casa de uma mulher que perde uma moeda de grande valor. A dracma não possui vida própria, não sabe que está perdida, não tem como se mover ou retornar à dona. Mesmo assim, a mulher acende a lâmpada, varre a casa, procura com cuidado até encontrá-la. O detalhe da luz acesa e da busca cuidadosa sugere um Deus que ilumina, revela, perscruta até os cantos mais escuros da interioridade humana. Aqui, diferente da ovelha que ao menos poderia balir, não há nenhum sinal emitido pelo objeto perdido; tudo depende da diligência da mulher. A narrativa enfatiza que não há perdidos invisíveis ou insignificantes para Deus, e que a restauração envolve uma busca cuidadosa, paciente e insistente. A alegria expressa ao final, com a convocação das amigas e vizinhas, demonstra novamente o caráter comunitário da celebração divina, mas agora sob o ponto de vista da recuperação do valor e da dignidade.
Quando chegamos à parábola do filho pródigo, o cenário muda radicalmente. Não há um objeto inanimado nem um animal irracional, mas um ser humano consciente, que toma decisões e assume responsabilidades. Aqui, o perdido fala, decide, sai e volta. A história enfatiza, mais do que a busca divina, a liberdade humana e a dinâmica da conversão. O pai não vai atrás do filho fisicamente, como o pastor com a ovelha, nem o procura insistentemente como a mulher com a dracma. No entanto, sua postura não é de indiferença; ele espera, vigia o horizonte e corre ao encontro do filho no instante em que o vê retornando. A busca, antes explícita, torna-se silenciosa, mas igualmente ativa: é a busca do amor que respeita a liberdade do outro. O filho vive um processo interior de queda, fome, reflexão e decisão, algo inexistente nas outras parábolas. Isso revela que há perdas que se resolvem por pura intervenção divina, mas há também aquelas que exigem um movimento de retorno por parte do ser humano. A restauração, aqui, envolve arrependimento, confissão, perdão e reconciliação dentro de uma relação pessoal.
Há também, na parábola do filho pródigo, a figura do irmão mais velho, que fica indignado com a festa oferecida ao que voltou, revelando o drama de quem está “em casa”, mas com o coração distante do pai. Se a ovelha perdida e a dracma enfatizam a alegria celeste por um pecador que se arrepende, a terceira parábola termina em aberto, sem dizer se o irmão mais velho entrou ou não na celebração, confrontando diretamente os fariseus que criticavam Jesus: eles são o filho mais velho diante da graça escandalosa do Pai. A ausência de conclusão explicita que a resposta cabe aos ouvintes – tanto aos pecadores convidados a voltar quanto aos “justos” chamados a aprender a se alegrar com a misericórdia.
Outro elemento essencial é que, em todas elas, a alegria é o ponto culminante. O pastor chama os amigos, a mulher convoca as vizinhas, o pai organiza uma grande festa. Há um ritmo de celebração que estrutura as três parábolas e sublinha que, para Deus, a restauração é motivo de alegria e não de reprimenda. Isso contrasta diretamente com as críticas dos fariseus, cujo olhar julgador dava mais importância à conduta passada dos pecadores do que ao valor de sua conversão. Jesus, ao contar as parábolas, desvela um Deus que celebra o encontro mais do que condena o extravio.
Embora semelhantes quanto ao tema da perda e da alegria no reencontro, há também um sentido de progressão: da ovelha ao filho pródigo, a narrativa cresce em complexidade, profundidade e impacto emocional. Primeiro um animal, depois um objeto e, por fim, um ser humano com vontade própria. E com essa progressão cresce também a revelação do coração de Deus – que não apenas busca e encontra, mas também perdoa, abraça, restitui e reconcilia. Assim, as três parábolas, lidas juntas, compõem um retrato amplo da misericórdia divina: ativa, insistente, sensível, paciente e celebrativa. São três janelas para um mesmo amor que não se cansa de restaurar, cada uma iluminando uma faceta desse mistério.
Pr. Rodrigo Deiró



Foi muito bom essa leitura para nos fazer entender as parábolas.
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