Quando Jesus atravessa nossa Samaria


 

“E era-lhe necessário passar por Samaria”
(João 4:4)

Há palavras nas Escrituras que, quando lemos, parecem simples detalhes geográficos, mas tornam-se espelhos espirituais quando o Espírito Santo ilumina nosso coração. Samaria, para muitos, era um lugar evitado, desprezado, negligenciado. Contudo, para Jesus, era caminho necessário. Não porque o terreno fosse agradável, não porque o ambiente fosse confortável, mas porque ali havia uma alma sedenta, uma história marcada pela vergonha, pelas tentativas frustradas de preencher vazios, pelos relacionamentos quebrados que nunca conseguiram matar a sede da alma. Jesus não evita Samaria; Ele a atravessa. E, de forma confrontadora, essa verdade expõe que Ele também insiste em atravessar as nossas.

Cada um de nós carrega sua própria Samaria: aquele território interno que preferimos contornar, aquele conflito que evitamos encarar, aquela realidade que sabemos que custará confrontação, renúncia e verdade. E, sabendo disso, damos voltas longas, optamos por rotas mais fáceis, caminhamos para longe do olhar de Cristo. Quantas vezes contornamos a rota da obediência, mantendo-nos ocupados com os cântaros de nossas repetições, sentimentos e vícios, apenas para voltarmos com a mesma sede de sempre? Jesus, entretanto, sentou-se à beira do poço de nossas rotinas, no calor do meio-dia de nossas culpas, para dizer: “Se tu conheceras o dom de Deus... tu lhe pedirias, e ele te daria água viva” (João 4:10). A promessa não é um intervalo superficial, mas uma fonte dentro de nós que jorra para a vida eterna, porque “aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede” (João 4:14).

A mulher samaritana tinha suas dores, e as Escrituras revelam especialmente a área de seus relacionamentos amorosos. Cinco maridos. Conflitos. Vergonha. Tentativas. Fracassos. Carências. Reconstruções mal resolvidas. E o homem com quem morava também não era seu marido. Ela estava ferida, confusa, sedenta; e ainda assim continuava indo ao mesmo poço, dia após dia, carregando o mesmo cântaro, repetindo a mesma rotina, esperando talvez resultados diferentes daquilo que sempre foi igual. Mas naquele dia, ao encontrar Jesus, ela ouviu palavras que nenhum outro homem lhe dissera. Ela foi revelada por completo, e em vez de fugir, confessou. Em vez de esconder-se novamente, rendeu-se. E aquele dia se tornou o dia em que ela deixou seu cântaro, símbolo do ciclo que a aprisionava, e correu para viver algo novo.

Samaria representa justamente isso: áreas que preferimos não tocar, pessoas que não queremos enfrentar, feridas que não desejamos abrir, ressentimentos que não queremos admitir, pecados que evitamos expor, vontades que alimentam o ego mas sufocam o espírito. Samaria pode ser o orgulho que não permite pedir perdão, o medo de ser liberto porque a liberdade exige responsabilidade, a teimosia que insiste em manter o controle, o passado que insistimos em carregar como se fosse parte da nossa identidade. Samaria é o território onde Jesus deseja entrar, mas onde nós resistimos em deixá-Lo caminhar.

Mas o texto afirma: “era-lhe necessário”. Jesus não teve a opção de evitar Samaria; houve uma necessidade divina, uma agenda celestial, um encontro marcado pelo Pai. E hoje, essa mesma necessidade se dirige a nós: Ele precisa atravessar nossas Samarias. Ele procura corações sedentos, almas cansadas, vidas que já não suportam mais continuar bebendo das mesmas cisternas rotas que Jeremias denunciou: “Porque o meu povo fez duas maldades: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (Jeremias 2:13). É justamente isso que Jesus confronta na mulher samaritana, e é isso que Ele confronta em nós.

Quantas vezes fugimos exatamente do lugar onde Ele nos aguarda? Quantas vezes evitamos a conversa que Ele quer ter, a verdade que Ele deseja revelar, a mudança que Ele quer operar? E então continuamos achando que basta seguir carregando nosso cântaro, como se o peso fosse normal, como se a rotina fosse aceitável. Mas Jesus não veio apenas para aliviar a caminhada; Ele veio para substituir o cântaro pela fonte. Ele não quer apenas que você siga vivendo, Ele quer que você viva em abundância.

A mulher samaritana entrou naquele poço como alguém cansada e saiu como testemunha. Entrou escondida e saiu anunciando. Entrou sedenta e saiu saciada. Entrou com vergonha e saiu com identidade. Entrou evitando pessoas e saiu chamando pessoas. Tudo mudou quando ela decidiu parar e permitir que Jesus atravessasse a Samaria de sua alma. E é isso que Ele deseja fazer conosco. Isso porque não há nada, nem ninguém, que possa nos devolver a verdadeira dignidade e identidade de filhos de Deus, a não ser Jesus. Não é relacionamento, não é emoção, não é conquista, não é aprovação humana. É Cristo, somente Ele. Ele nos vê quando tentamos esconder-nos, Ele nos chama quando fugimos, Ele nos confronta quando insistimos em nos justificar, e Ele nos transforma quando finalmente nos rendemos.

Hoje, Jesus ainda atravessa Samarias. Ele ainda se senta junto ao poço. Ele ainda fala com quem ninguém quer falar. Ele ainda revela verdades que libertam. Ele ainda transforma histórias que pareciam perdidas. Mas Ele não força a porta; Ele espera o cântaro ser deixado aos Seus pés.

O que é sua Samaria hoje? Qual é o cântaro que você insiste em carregar? Que verdade você tem medo de admitir diante d’Aquele que já sabe todas as coisas? Ele está ali, presente, e Seu olhar é de graça, verdade e restauração. Renda-se. Permita que Ele atravesse o território onde você nunca quis deixá-Lo entrar. Porque o Cristo que precisava passar por Samaria é o mesmo que hoje precisa passar por você. E quando Ele passa, ninguém permanece o mesmo.


Pr. Rodrigo Deiró

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