Rendição e Permanência


 

Há uma verdade que muitas vezes o coração humano reluta em aceitar: o homem não é o artífice de si mesmo. Somos barro nas mãos de um Oleiro que não apenas molda, mas decide o formato, o tempo da roda e o fogo do forno. O barro não briga com o oleiro. Não dita a forma que deseja, não exige um acabamento especial, não tenta pular do torno para moldar a si mesmo. Barro não argumenta, não se opõe, não endurece para manter o controle. O barro se rende. E é nessa rendição silenciosa que o oleiro imprime seu propósito, sua intenção e seu cuidado. O barro não dita o ritmo da modelagem, nem reclama do toque que o aperta, nem foge da água que o amolece. Ele apenas se torna o que o oleiro deseja. Essa é a lição que o coração endurecido precisa reaprender. Essas verdades, tão simples e tão repetidas, são também profundamente confrontadoras, porque nos desmascaram. Revelam o quanto insistimos em tentar produzir sozinhos aquilo que só Deus pode gerar em nós. Expõem o quanto nos agitamos, nos esforçamos, nos justificamos… enquanto o Senhor apenas nos chama para render e permanecer. A obra não é nossa, nunca foi, e quando tentamos assumi-la, inevitavelmente perdemos o sentido, o rumo e a força.

Mas nós, tão cheios de vida, opinião e urgências, tentamos negociar com Deus o processo da formação. Queremos ser moldados, mas sem pressão. Queremos ser refinados, mas sem fogo. Queremos ser transformados, mas mantendo áreas intactas, espaços intocáveis, hábitos que insistimos em guardar. E quando Deus põe as mãos sobre nós para nos refazer, tensionamos, resistimos, reclamamos. Esquecemos que barro resistente se parte, mas barro rendido se torna vaso. Enquanto o homem tenta ser o seu próprio oleiro, ele se racha; enquanto busca controlar as circunstâncias, ele se quebra. Mas quando se rende, o toque divino transforma a argila bruta em vaso de honra.

A rendição não é passividade. É confiança absoluta. É dizer, como o profeta Jeremias entendeu diante da casa do oleiro: “Faz de mim o que quiseres, Senhor”. Só aquele que se entrega à modelagem encontra o propósito eterno para o qual foi criado. O vaso não existe para ser olhado, mas para ser usado. Por isso, a forma que o Senhor dá pode não agradar ao olhar humano, mas se ajusta perfeitamente à função para a qual Ele o preparou. É melhor ser um pequeno copo nas mãos do Mestre do que um grande jarro rachado, exibido mas inútil.

Porém a rendição é apenas o primeiro chamado. Depois de se render, o vaso precisa permanecer. O ramo que não permanece seca. Como o ramo revela a verdade sobre nós! O ramo não produz fruto porque tenta, porque se esforça ou porque deseja muito. O ramo frutifica porque permanece conectado à videira. Quem trabalha é a seiva. Quem opera é a vida da videira. O ramo é apenas um condutor, um participante, um cooperador dependente. Quem permanece, frutifica. Quem se isola, morre. O ramo não precisa se esforçar para produzir; precisa apenas não se desligar. A permanência é o segredo da frutificação. Permanecer é orar quando o coração quer desistir. É confiar quando as circunstâncias parecem contrárias. É escolher estar aos pés de Jesus quando o mundo insiste em nos colocar de pé para correr. Muitos ramos se perdem porque confundem movimento com vida. Se esquecem de que a seiva só corre onde há ligação verdadeira.

A videira é Cristo e é d’Ele que vem a seiva viva que dá fruto. O ramo não produz nada por si mesmo; ele apenas recebe. A força, a vitalidade e o fruto, tudo vem de dentro da videira. Assim deve ser o discípulo. A vida de Cristo flui em nós quando estamos ligados a Ele, e todo esforço humano que tenta gerar fruto sem comunhão é só aparência, fruto de plástico, sem sabor e sem vida.

A seiva não é visível, mas é ela que sustenta tudo. É invisível, mas essencial. Assim é o Espírito de Deus agindo naqueles que permanecem. O exterior pode não parecer frutífero, mas se a seiva está fluindo, o fruto virá no tempo certo. O ramo não precisa provar nada; precisa apenas continuar recebendo. A prova de uma ligação viva não está na pressa do fruto, mas na constância da permanência. A videira sabe o tempo da colheita, e o Pai, sendo o agricultor, jamais se engana no dia de podar ou no tempo de fazer florescer.

Rendição e permanência. Duas palavras simples, mas que carregam um Evangelho inteiro. Deus nunca exigiu de nós que fizéssemos a obra. Ele exige que nos submetamos à obra que Ele está fazendo. O perigo é que, mesmo conhecendo essa verdade, tentamos tomar o lugar do oleiro e ocupar o papel da videira. Queremos controlar o processo e determinar o ritmo. Queremos crescer sem morrer, florescer sem obedecer, frutificar sem permanecer. Mas o Evangelho não funciona assim. A vida de Deus não flui em corações resistentes. O fruto do Espírito não nasce em ramos isolados. A vontade do Pai não se cumpre em vidas que insistem em manter o comando.

A obra é d’Ele. Essa é a conclusão de todo coração que aprendeu a render-se e a permanecer. Nenhum barro se gloria em sua forma, nenhum ramo se orgulha do fruto que carrega. O louvor pertence ao Oleiro e à Videira. Quando o homem tenta tomar a glória para si, a rachadura aparece e o galho se seca. É Deus quem começa, continua e conclui a boa obra. A rendição apenas abre espaço para que Ele faça o que sempre quis fazer: revelar Sua glória em vasos frágeis e frutificar a vida de Cristo em ramos comuns.

Há poder em se render. Há milagre em permanecer. O barro que se entrega deixa de temer o fogo, porque confia na sabedoria do Oleiro. O ramo que permanece aprende a esperar o fruto, porque confia na seiva invisível que trabalha no silêncio. Aqueles que tentam moldar-se com as próprias mãos nunca saberão o que é descanso. Aqueles que tentam produzir com as próprias forças nunca conhecerão o que é graça. O chamado do Senhor é simples, mas exige humildade: “Deixa-me fazer. Fica ligado a Mim”.

O orgulho é o maior inimigo da rendição e da permanência. O coração que quer se mostrar não aceita o toque do Oleiro, nem aguenta o tempo da poda. Mas o quebrantado se entrega e o humilde permanece. Deus não usa vasos rebeldes nem ramos independentes. Ele busca corações que se deixem moldar e vidas que continuem ligadas à fonte. Não há atalho para a maturidade espiritual. O segredo não está no esforço, mas na entrega. Não está no ativismo, mas na comunhão. Não está no tentar fazer, mas em permitir que Ele faça.

Por isso, hoje o Espírito Santo sussurra à alma cansada: “Só se renda, só permaneça”. Não vivas tentando produzir o que apenas a seiva pode gerar. Não te rebeles contra a mão que te molda. A tua forma e o teu fruto pertencem ao mesmo Deus. Ele te amassa, Ele te poda, mas é o mesmo que te enche e te floresce. O mesmo fogo que prova é o que sela a glória no vaso. A mesma poda que corta é a que prepara para o fruto mais doce. Só se rende, só permanece. O resto é d’Ele, e nisto está o descanso da fé.

Quando o crente entende isso, o fardo cai e o coração se aquieta. Porque quem se rende deixa de disputar com Deus, e quem permanece deixa de tentar substituí-Lo. O Oleiro não erra; a Videira não falha. Tudo o que Ele toca, completa. Tudo o que Ele alimenta, frutifica. E toda alma que se entrega a esse processo será, no tempo determinado, um vaso cheio e um ramo carregado. Não porque conseguiu, mas porque permitiu. A obra é d’Ele. Sempre foi. Sempre será.

“Tendo por certo isto mesmo: que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo”
(Filipenses 1:6)

Pr. Rodrigo Deiró

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