A dádiva de desfrutar da suficiência de Cristo
“Porque
foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse”
(Colossenses 1:19)
Essa declaração derruba,
de uma vez por todas, qualquer tentativa de tratar Jesus como um acessório da
nossa vida, um meio para um fim maior, um degrau para alcançarmos aquilo que
realmente desejamos. Aos olhos do Pai, não há nada fora de Cristo que complemente
Cristo, que acrescente algo à Sua suficiência, que complete o que Lhe falta.
Toda a plenitude habita n'Ele. Não faça parte. Não a maioria. Toda. Se toda a
plenitude habita em Cristo, isso significa que qualquer busca de satisfação
fora d’Ele é, em essência, uma confissão de incredulidade. É dizer com a vida: “Não
acredito que Ele é suficiente”. Quando o coração se inclina a usar Jesus
para conseguir outra coisa – um casamento ideal, um emprego mais confortável,
riquezas financeiras, reconhecimento ministerial, cura física – ainda que essas
coisas, em si mesmas, não sejam más, o movimento interno é perverso: Cristo
deixa de ser o Tesouro e passa a ser o atalho. O Salvador é colocado na posição
de servo dos nossos ídolos. Ora, se o Pai agradou que toda a plenitude
habitasse em Cristo, como pode agradar ao Pai um coração que reduz o Seu Filho
a um instrumento para alcançar outros prazeres?
É difícil admitir, mas
muitas vezes o culto cristão se torna um mercado espiritual, onde corações
famintos pedem vitórias, mas não pedem o próprio Cristo. Há lágrimas pelo que
foi perdido, mas poucas lágrimas por termos amado mais as dádivas do que o
Doador. As orações, muitas vezes, traduzem isso: longas listas de desejos,
pouca esperança; muita ansiedade por portas abertas, quase nenhum clamor por
maior intimidade com o Senhor. No fundo, o problema não é excesso de pedidos,
mas a ordem do amor. Quando o que mais se teme perder não é Cristo, mas aquilo
que Cristo pode dar, o coração já está em adultério espiritual. Usar Cristo
como meio é insultar exatamente aquilo que o Pai exaltou: a plenitude que
habita n'Ele. Se o Pai se alegra em ver toda a plenitude em Cristo, por que nos
alegramos mais em ver plenitude em qualquer outra coisa?
Cristo não é um trampolim
para o casamento dos sonhos, não é uma porta de entrada para uma vida
financeira estável, não é um “patrocinador” das nossas ambições
encobertas por uma linguagem religiosa. Ele é o fim da nossa busca, a plenitude
da nossa satisfação, o descanso do nosso coração cansado de correr atrás de
cisternas rotas que não retém água. Se Cristo é uma plenitude, então todo o resto,
ainda que legítimo, é secundário. Se Ele é o fim, tudo o mais é meio – e, por
isso mesmo, deve se curvar diante d'Ele. O Evangelho não nos chama a usar Jesus
para uma vida mais confortável, mas a perder, se necessário, a própria vida
para ganhar Cristo. Não nos chama a colocar Cristo ao lado de outros amores,
mas a crucificar todos os outros amores que disputam a centralidade de Cristo.
A verdade é que aquilo
que mais nos satisfaz, mais nos governa. Se a alma se satisfazer em elogios,
viverá em função da aprovação das pessoas. Se você conseguir dinheiro, venderá
condenações na primeira chance que tiver de lucrar. Se você se sentir satisfeito
com o prazer, dobrará os joelhos diante de qualquer ídolo que prometa sensações
mais intensas. Mas se a alma se satisfaz em Cristo, o coração se torna livre.
Livre para perder e, ainda assim, cantar. Livre para ser rejeitado e, ainda
assim, descansar. Livre para ser humilhado e, ainda assim, se alegrar, porque a
fonte da alegria não está nas situações, mas na plenitude que habita n'Ele.
Quanto mais satisfeitos em Cristo, mais Ele será glorificado em nós. Não se
trata de uma frase bonita para emoldurar, mas de um diagnóstico espiritual: o
grau de glória que Cristo recebe em nós, está diretamente ligado ao grau de
satisfação que nosso coração não encontra n’Ele.
Isso confronta
profundamente a vida de muitos cristãos que conhecem a doutrina, mas vivem de
migalhas de prazer em Cristo, enquanto se empanturram de prazeres passageiros
deste mundo. A língua canta “Tu és suficiente”, mas o coração murmura
sempre que Deus nega um desejo ou frustra um plano. A boca proclama “Tua
graça me basta”, mas a vida desmorona emocionalmente quando algo terreno é
abalado. Basta um “não” de Deus para expor se Cristo é de fato nosso
tesouro ou se era apenas o fiador dos nossos sonhos.
É necessário, então,
ouvir a Palavra de Deus não apenas como consolo, mas como confronto amoroso. O
Pai não tem outro plano de plenitude fora de Cristo. Não há “Cristo +
carreira”, “Cristo + reconhecimento”, “Cristo + estabilidade”
como base da verdadeira alegria. Tudo isso pode ser dado, sim, mas não como
fundamento do coração, e sim como acréscimo que pode ser retirado a qualquer
momento sem roubar de nós a verdadeira vida. O chamado é claro: arrependimento
por tratar Jesus como escada, quando Ele é o destino final; por transformar o
Filho de Deus em chave de acesso a um terreno “paraíso”, quando Ele
mesmo for o Paraíso da alma regenerada. Arrependimento por orarmos mais por
mudanças de situação do que por mudança de coração; por desejarmos mais
livramento do sofrimento do que comunhão com Cristo no sofrimento.
A boa notícia é que esse
mesmo Cristo, em quem habita toda a plenitude, não rejeita um coração
quebrantado que confessa: “Senhor, tenho Te usado, em vez de Te adorar;
tenho Te buscado mais como meio do que como fim”. A plenitude de Cristo não
é apenas grandiosa, é também graciosa. Há perdão para os idólatras que se
prostram diante do verdadeiro Deus. Há restauração para corações divididos que
se rendem completamente a Jesus. Há uma nova alegria para aqueles que, cansados
de correr atrás do vento, finalmente descansam na suficiência de Cristo. A
vida cristã não é uma sequência de barganhas com Deus para que Ele mantenha
nosso pequeno mundo em ordem, mas uma jornada de rendição progressiva, onde,
passo a passo, tudo vai perdendo o brilho diante da beleza do Cordeiro.
Que esta verdade nos alcance hoje! Se o Pai se alegra em ver toda a plenitude em Cristo, o maior privilégio de sua vida é aprender a se alegrar no mesmo Cristo em quem o Pai Se alegra. Se toda a plenitude habita n'Ele, não falta nada para sua alma que o mundo possa acrescentar. Falta, sim, ao coração crer, saborear, se submeter e descansar nessa plenitude. Que o Espírito Santo desmonte, com amor firme, toda tentativa de usar Cristo, e nos conduza a adorá-Lo como o fim da nossa busca. Que nosso coração ore, com sinceridade: "Senhor Jesus, sê Tu mesmo a minha satisfação, o meu tesouro, o meu prazer. Que, quanto mais satisfeito estiver em Ti, mais a Tua glória transborde em minha vida". Então, sim, Cristo será visto em nós, não como um meio para outra coisa, mas como o Tudo que torna todo o resto pequeno e relativo diante da Sua glória.
Pr. Rodrigo Deiró



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