A vitória de quem se rende


 

“E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres”
(Mateus 26:38-39)


Neste versículo, encontramos Jesus em um dos momentos mais angustiantes de Sua vida. No Getsêmani, Jesus nos leva ao lugar onde a fé deixa de ser discurso e se torna decisão. Ali não há plateia, não há aplausos, não há milagres visíveis. Há chão molhado de suor, há silêncio pesado e há um Filho prostrado com o rosto em terra. O texto diz que Ele foi “um pouco adiante”. Às vezes, obedecer a Deus exige ir além de onde os outros conseguem ir, além do conforto, além das explicações fáceis, além da fé superficial.

Jesus não estava recitando uma oração decorada. Ele estava derramando a alma. Suas lágrimas eram tão intensas que o evangelho diz que Seu suor se tornou como gotas de sangue. Ele sente angústia, tristeza profunda, aflição real. Era o Filho enfrentando o peso do pecado do mundo. No Getsêmani, aprendemos que sentir medo não é pecado, mas fugir da vontade do Pai é. O problema não é o desejo de que o cálice passe, mas a recusa em obedecer quando ele não passa.

O cálice representa aquilo que não escolhemos, mas que nos é apresentado pelo propósito de Deus. É a dor que não pedimos, a perda que não planejamos, o caminho que não parece justo aos nossos olhos. Todos nós, em algum momento, estaremos diante de um cálice. E a pergunta não é se vamos sentir medo, mas o que faremos quando nossa vontade entrar em choque com a vontade do Pai. Nesse instante, o céu viu o verdadeiro significado da obediência. Porque obedecer quando tudo é fácil não exige fé; mas render-se quando tudo dentro de nós grita o contrário, isso sim é fé genuína.

Jesus mostra que a maior batalha não foi travada na cruz, mas no jardim. A cruz foi consequência de uma decisão tomada de joelhos. Antes de cravos nas mãos, houve rendição no coração. Antes do “está consumado”, houve um “não seja como eu quero”. Isso revela que obediência não começa quando tudo faz sentido, mas quando confiamos mesmo sem entender. Jesus nos mostra que submissão não é fraqueza, é poder sob controle. O homem que se prostra diante de Deus permanece de pé diante de qualquer circunstância. A mulher que se rende à vontade do Pai caminha com firmeza mesmo quando os ventos sopram contra. Submeter-se à vontade de Deus é confiar que mesmo aquilo que dói agora, pode frutificar depois.

Há momentos em que obedecer a Deus parece perder. Parece abrir mão, recuar, morrer por dentro. Mas o Getsêmani nos ensina que toda rendição verdadeira precede uma ressurreição. O Pai nunca desperdiça a dor de um filho obediente. O cálice pode ser amargo, mas o resultado é eterno. Mas, até onde vai a nossa obediência? Nós seguimos a vontade de Deus enquanto ela combina com nossos planos ou mesmo quando ela nos leva ao chão? Fé madura não é a que diz “Deus fará do meu jeito”, mas a que ora com lágrimas e ainda assim declara: “seja feita a Tua vontade”.

A vitória de Jesus começou quando Ele se curvou. E a nossa também. A verdadeira vitória não está em ter o controle, mas em confiar o controle. Não está em moldar Deus aos nossos desejos, mas em permitir que Ele nos molde por meio da obediência. Quando aprendemos a desejar o que Deus deseja, mesmo que doa, descobrimos que a vontade do Pai não é apenas boa, agradável e perfeita, mas que ela é o único lugar onde a nossa alma encontra descanso, mesmo em meio à dor.

Pr. Rodrigo Deiró

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