Desaparecer para que Ele apareça
Vivemos dias em que engano
sutil que ronda o coração humano e, muitas vezes, também o ambiente da fé: achar
que o ápice da vida cristã é ser visto, reconhecido, exaltado ou até mesmo
abençoado diante dos homens. Mas o Evangelho nos conduz em direção oposta: o
propósito da vida cristã não é ser notado, mas que Cristo seja revelado e
que o Pai seja glorificado. Jesus nunca apontou para Si mesmo, mas viveu
para manifestar o Pai. A Bíblia afirma que Ele é “a imagem do Deus
invisível” (Colossenses 1:15). O próprio Jesus declarou: “Quem me
vê a mim vê o Pai” (João 14:9). Onde Cristo era visto, o Pai era
revelado. Da mesma forma, a Igreja não existe para exibir a si mesma, mas para
tornar visível um Cristo que o mundo não enxerga com os olhos naturais. A nossa
missão é refletir, não brilhar por conta própria; é indicado o Caminho, não
ocupe o lugar d'Ele.
A glória não está em
construir um nome, um título ou uma plataforma. A glória é exaltar o “nome
que é sobre todo nome” (Filipenses 2:9). Toda vez que tentamos ocupar o
centro, roubamos o lugar que pertence somente a Ele. O verdadeiro ápice da vida
cristã não é ser abençoado, e sim ser transformado.
Não é subir degraus de honra diante dos homens, mas descer aos pés da cruz,
onde somente Cristo é exaltado. João Batista entendeu isso com profundidade
quando declarou “é necessário que Ele cresça e que eu diminua”
(João 3:30). Não foi uma frase poética, foi uma postura de vida. Diminuição
própria não é perda; é o caminho para a verdadeira glorificação do Pai.
Jesus nos chamou de sal
da terra e luz do mundo (Mateus 5:13-16). O sal cumpre sua função quando
desaparece no alimento. Ele tempera, preserva, transforma, mas não chama
atenção para si. Quando o sal se torna visível, algo está errado. Assim também
é conosco: o nosso papel não é sermos notados, mas fazermos diferença. A luz
não é o fim. Ela é o meio pelo qual o Pai recebe glória. Se a tua luz te
glorifica, é porque ela não vem de Cristo. Luz legítima é aquela que não realça
o vaso, mas o conteúdo; não promove o servo, mas o Senhor. A luz que há em nós
não existe para nos promover, mas para que, ao brilhar, outros glorifiquem o
Pai que está nos céus. O próprio Cristo disse: “Assim resplandeça a vossa
luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o
vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:16).
Jesus foi ainda mais
incisivo ao afirmar: “Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto;
e assim sereis meus discípulos” (João 15:8). A glória do Pai se revela
quando a vida dos filhos manifesta a vida do Filho. Fruto não é performance
religiosa, não é o nosso sucesso, mas é o reflexo vida de Cristo fluindo em
nós. Quando a vida eterna que habita no interior se expressa no caráter, nas
escolhas, na renúncia e no amor, Cristo se torna visível. Por isso, o propósito
da santificação não é apenas sermos melhores, mas sermos espelhos mais
limpos, para que a imagem do Filho seja encontrada sem reserva. E quando Cristo
é visto, inevitavelmente o Pai é revelado.
Isso exige negação. Não
há como Cristo aparecer plenamente enquanto o ego governa o trono do coração.
Jesus foi claro: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo”
(Mateus 16:24). A velha natureza precisa ser desfeita para que a vida de Cristo
aumente. Esse processo é doloroso, confrontador e contínuo, mas é nele que a
verdadeira glória se manifesta. Não a glória que passa, mas a glória que
permanece. Não a glória que exalta homens, mas a glória que revela o Pai.
Que o Espírito Santo nos livre do desejo por holofotes e nos transforme em holofotes que apontam para Cristo. Que sejamos contentes em desaparecer, desde que Ele apareça. Porque quando nós diminuímos, Cristo cresce; quando Cristo cresce, o Pai é glorificado; e quando o Pai é glorificado, a vida se manifesta com fruto, poder e verdade. Esse é o ápice.
Pr. Rodrigo Deiró



Amém!
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