Entre Mara e Elim: quando o deserto se torna cura


No deserto não há distrações porque Deus, em Sua pedagogia santa, remove os ruídos para tratar o coração. O deserto é o lugar onde cessam os aplausos e começam as conversas profundas. É só você e Ele. Por isso, temporadas de deserto não são punições, são convites à intimidade, propostas de amadurecimento e ambientes improváveis para milagres. Mas nada disso acontece sem compreensão, obediência e resiliência, porque o deserto não coopera com a pressa nem com a superficialidade. O deserto é sala de aula para os que Deus quer amadurecer e altar para os que Ele pretende usar.

“Depois, fez Moisés partir os israelitas do Mar Vermelho, e saíram ao deserto de Sur; e andaram três dias no deserto, e não acharam água. Então, chegaram a Mara; mas não puderam beber as águas de Mara, porque eram amargas” (Êxodo 15:22-23). O texto de Êxodo nos mostra algo desconcertante. Logo após o cântico da vitória, Israel encontra águas amargas. O povo que havia atravessado o mar a seco agora trava diante de uma fonte que não pode beber. O deserto começa não com festa, mas com crise. Isso não é falha do caminho, é formação. Deus não errou a rota; Ele estava formando um povo que sabia cantar, mas ainda não sabia confiar quando a sede apertava.

Em Mara, Deus não remove imediatamente o deserto, Ele toca a amargura. O Senhor poderia ter criado outra fonte, aberto um poço novo ou transportado o povo para Elim sem demora, mas escolheu transformar exatamente aquilo que estava amargo. “E ele clamou ao Senhor, e o Senhor mostrou-lhe um lenho que lançou nas águas, e as águas se tornaram doces” (Êxodo 15:25). O graveto lançado nas águas não foi um ato mágico, foi obediência. Um simples gesto de fé abriu caminho para o milagre. O madeiro transformando amargura em doçura é uma figura do próprio Cristo. Ele é o madeiro lançado no ponto mais amargo da história – a cruz. O Calvário foi o deserto da humanidade, onde a morte parecia definitiva, mas foi justamente ali que Deus iniciou a transformação das águas do mundo.

Hoje, a Igreja caminha entre Mara e Elim. Entre a amargura real de um mundo ferido e a promessa da nova criação. Não caminhamos como quem foge da história, mas como quem carrega sinais de que ela está sendo curada. Elim existe, com suas palmeiras e fontes, mas o caminho até lá passa por Mara. “Então, vieram a Elim, e havia doze fontes de águas e setenta palmeiras; e ali se acamparam junto das águas” (Êxodo 15:27). O descanso vem, mas antes Deus cura a percepção, trata a murmuração e aprofunda a dependência.

O que sustenta nossa esperança é saber que o fim da história já foi revelado. A Bíblia nos mostra que o destino final não são águas amargas, mas um rio de vida. “E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro… e as folhas da árvore são para a saúde das nações” (Apocalipse 22:1-2). Enquanto esse dia não chega plenamente, caminhamos com fé, porque onde a Palavra toca, até águas amargas se tornam sinais do Reino. O deserto não nos define, Mara não nos destrói, e a cruz garante que Deus continua transformando a amargura em testemunho vivo de Sua graça.

 Pr. Rodrigo Deiró

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