Espelho antes da espada
“Não
use a Bíblia como espada contra outros,
sem antes usá-la como espelho para si
mesmo!”
Vivemos tempos em que
muitos se levantam para falar em nome de Deus, empunhando versículos como
armas, prontos para ferir, condenar e expor o pecado alheio. Contudo, poucos
têm a coragem de deixar que a mesma palavra que acusam os outros também os
confrontem, os quebrem e os moldem. A Bíblia não foi dada primeiro para ser
espada em nossas mãos, mas espelho diante de nossos olhos. Antes de ser
instrumento de correção no próximo, ela é instrumento de santificação pessoal. “Porque
a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de
duas gumes” (Hebreus 4:12). Se ela tem dois gumes, é porque corta em
ambas as direções – alcança aquele que a ouve, mas também aquele que a
proclama. Em suma, a Palavra de Deus não foi entregue para alimentar o nosso
orgulho, mas para crucificar o nosso ego.
Há quem cite a Escritura
com autoridade, mas sem pureza. Há quem conheça o texto, mas não se deixe
conhecer por ele. É possível falar a verdade e ainda assim estar fora dela. Os
fariseus, mestres da Lei, tinham vasto conhecimento da Palavra, mas usavam-na
para acusar e não para amar, para condenar e não para restaurar. Jesus os
avisou severamente: "Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e
então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão" (Mateus
7:5). Não é falta de conhecimento bíblico que produz esse erro, mas excesso de
soberba disfarçada de zelo. O problema não está em corrigir o erro, mas em
fazê-lo com um coração que não se deixou corrigir. O verdadeiro servo de Deus
não mostra a Bíblia para provar sua razão, mas abre para revelar sua
necessidade de graça. Tiago afirma que aquele que ouve a Palavra e não a
pratica “é semelhante ao homem que contempla no espelho o seu rosto
natural” e logo se esquece de quem é (Tiago 1:23-24). O espelho revela,
mas só o arrependimento transforma.
A Palavra que transforma
é a mesma que primeiro humilha. É impossível manejar a espada do Espírito com
mãos impuras, nem falar com autoridade divina quando o coração está suportado
pelo orgulho. O pregador que não se deixa quebrar pela Escritura prega de modo
seco, duro e sem unção. Aquele, porém, que primeiro se vê no espelho da Palavra
prega com lágrimas, com humildade e com amor redentor. A espada que corta o
erro também cura as feridas; o espelho que revela a sujeira também mostra o
rosto que precisa de perdão.
O problema não está em
confrontar o pecado, pois a verdade precisa ser proclamada; o problema está em
confrontar sem antes ser confrontado por Deus. A correção que não nasce de um
coração quebrantado se torna dureza, e o zelo que não passa pela cruz se transforma
em julgamento. O próprio Cristo, que é a Verdade encarnada, nunca confrontou
sem amor, nem amou sem verdade. Ele chorou sobre Jerusalém antes de denunciar
sua cegueira, e lavou os pés dos discípulos antes de corrigir sua vaidade.
Quando usamos a Bíblia apenas para apontar falhas, revelamos que ainda não
entendemos o peso da graça que nos alcançou. Paulo declarou: “Examinai-vos
a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2
Coríntios 13:5). O exame começa dentro, não fora.
Este é um chamado urgente
ao arrependimento e à maturidade espiritual. Antes de apontar o dedo, dobre os
joelhos. Antes de citar um versículo, examine-se à luz dele. Deixe que a
Palavra o fira para depois ferir com propósito de cura. Deixe que ela o
exponha, para depois expor o pecado do mundo. Pois só quem se deixou matar pelo
Evangelho pode pregar a vida que dele brota. O Deus que exige santidade é o mesmo
Deus que concede misericórdia. E o maior escândalo não é o pecado do irmão, mas
o nosso orgulho disfarçado de zelo.
Não use, portanto, a Bíblia como espada para explicação de seu julgamento, mas como espelho que reflete sua condição diante de Cristo. Só depois que ela transformar você de dentro para fora é que possa, nas mãos do Espírito, se tornar espada que transforma outros. O Evangelho não precisa de guerreiros armados de versículos, mas de servos quebrados pela verdade. Deixe que a palavra o julgue antes de tentar julgar alguém. Deixe que ela faça em você o que espera ver nos outros. Só assim a espada será instrumento de vida, e o espelho, fonte de santidade.
Pr. Rodrigo Deiró



Aleluia
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