O Escândalo da Manjedoura
Deus nasceu como um bebê.
Há algo mais escandaloso para a razão humana do que isso? O Infinito cabendo
num ventre. A eternidade medindo nove meses. A voz que fez o universo reduzida
ao choro de um recém-nascido. Aquilo que jamais teve começo, começou. O Criador
entrou na criação. O Verbo que tudo sustenta, agora sustido nos braços frágeis
de uma jovem.
Que mistério
indescritível! Deus, que poderia vir como raio, veio como criança. Aquele que
ordena e os mares se aquietam, agora chora com fome. O Todo-Poderoso escolheu a
fraqueza como porta de entrada no mundo. E o mais impressionante: fez isso não
por necessidade, mas por amor. Agostinho de Hipona, atônito diante desse
milagre, escreveu: “Tomou o peito aquele que governa os astros”.
Essa frase balança o coração de quem compreende seu peso; o Soberano
sustentando o universo enquanto é sustentado por sua mãe.
Deus criou os céus e a
terra em seis dias, mas esperou quarenta semanas para nascer. Que humildade
inexplicável! O mesmo que mediu os céus com a palma da mão aceitou medir os
passos de um menino aprendendo a andar. O mesmo que falou e o ser veio a
existir, precisou aprender a articular palavras humanas. E quando falou, não
proferiu decretos de fogo, mas palavras de vida, compaixão e perdão. O mesmo
Senhor da glória tornou-se servo e conheceu o cansaço. Ele dormiu, sentiu frio
e calor, chorou lágrimas reais, sorriu com alegria humana, amou com
profundidade divina e sofreu com intensidade plena. Não foi um teatro
espiritual; não foi aparência... foi encarnação. Deus não veio explicar o
sofrimento à distância; Ele entrou nele. Não enviou apenas respostas do céu,
mas desceu ao chão da nossa história.
E é nesse contraste que
somos exortados. Se Deus escolheu o caminho da humildade, por que insistimos no
caminho da soberba? Se o Rei do universo se esvaziou, por que seguimos tentando
nos afirmar, nos exaltar e nos proteger atrás de máscaras espirituais? A
manjedoura denuncia nossa vaidade, desmonta nosso orgulho e a cruz sela essa
mensagem com sangue. O Filho eterno foi tentado, traído e crucificado não por falta
de poder, mas por excesso de amor. Amor que não recuou diante da
dor, nem desistiu diante da rejeição.
Ao olharmos para 2026, precisamos
permitir que essa verdade nos quebre por dentro. O Deus que se fez homem nos
chama a uma fé encarnada, vivida no chão da vida real, no perdão difícil, na
obediência custosa, na renúncia diária. Se Ele se fez pequeno para nos salvar,
não há espaço para uma fé inflada de ego e vazia de entrega.
Que em 2026 nos lembremos, todos os dias, que o Criador se fez criatura, não para ser admirado à distância, mas para ser seguido de perto. O escândalo da manjedoura continua nos chamando: ou nos rendemos a esse amor que se abaixa, ou jamais compreenderemos o Deus que veio nos levantar.
Pr. Rodrigo Deiró



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