Ordem de renúncia


 

Existe uma verdade que confronta profundamente nossa lógica humana e desmonta o orgulho religioso que muitas vezes se esconde atrás de cargos, tempo de igreja ou visibilidade: Deus não usa por ordem de chegada, mas por ordem de renúncia. A Escritura nunca apresentou o chamado como recompensa por antiguidade, mas como resposta àqueles que se esvaziam diante do Senhor. Não é o “tempo de crescimento” que determina a utilidade, mas o nível de entrega. Jesus foi claro ao dizer: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mateus 16:24). O Reino de Deus não é construído sobre currículos, mas sobre cruzes; não sobre quem chegou primeiro, mas sobre quem morreu primeiro para si.

Muitos querem ser usados, mas poucos querem renunciar. Querem o púlpito, mas não querem o segredo. Querem o microfone, mas não querem o deserto. Desejam os aplausos, mas fogem do quebrantamento. No entanto, a lógica de Deus não muda: Ele não unge vaidade, Ele unge altar. E altar, nas Escrituras, sempre foi lugar de morte, de sacrifício, de entrega total. Deus não coloca em evidência quem não aceita morrer para o próprio ego. “Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30) não é apenas uma frase bonita; é a marca de quem Deus pode usar. Saul foi escolhido rapidamente, mas perdeu o reino porque não renunciou à própria vontade; Davi, embora esquecido no campo, foi levantado porque tinha um coração quebrantado e submisso. A Bíblia declara que “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (Tiago 4:6). Enquanto alguns lutam para aparecer, Deus procura quem esteja disposto a desaparecer para que o nome d’Ele seja glorificado.

Renúncia não é perda; é alinhamento. É abrir mão do controle para que a vontade de Deus governe. É entender que não basta dizer “Senhor, Senhor”, mas obedecer, mesmo quando a obediência nos custa conforto, reconhecimento e aplausos. Renunciar é perdoar quando há motivo para guardar mágoa, é calar quando a carne quer se justificar, é servir quando ninguém vê, é permanecer fiel quando ninguém aplaude. Renúncia não é discurso; é sangue no chão, é lágrima no travesseiro, é joelho dobrado quando ninguém está olhando. E é justamente esse tipo de vida que Deus procura para usar. Não é o mais talentoso, é o mais rendido; não é o mais visto, é o mais escondido em Deus. Jesus ensinou que “os derradeiros serão primeiros, e os primeiros, derradeiros, porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mateus 20:16, ARC), porque no Reino a lógica é invertida: sobe quem desce, governa quem serve e vive quem morre para si mesmo. Não é o talento que move o céu, é a entrega; não é a pressa em fazer, mas a disposição em ser moldado.

O maior exemplo é o próprio Cristo. Sendo Deus, não se apegou à sua glória, mas se esvaziou, tomando a forma de servo e humilhando-se até a morte de cruz (Filipenses 2:5-8). Foi por causa dessa renúncia total que Deus O exaltou soberanamente. A exaltação vem depois da renúncia, nunca antes. O problema é que muitos querem Filipenses 2:9 (exaltação), mas não querem Filipenses 2:8 (humilhação). Querem ser elevados sem passar pela descida, querem ordem sem obediência, querem unção sem quebrantamento.

Este texto nos chama a uma autoavaliação honesta diante de Deus. Não se trata de perguntar há quanto tempo estamos na caminhada, mas o quanto já renunciamos ao nosso eu. O Senhor ainda está à procura de vasos limpos, não de vitrines religiosas; de corações quebrantados, não de performances espirituais. “Eis que estou à porta, e bato” (Apocalipse 3:20), não para negociar espaço, mas para reinar por completo. Quando renunciamos, Deus age; quando nos esvaziamos, Ele nos enche; quando descemos, Ele nos exalta no tempo certo. Porque, no Reino, não é usado quem chega primeiro, mas quem se rende por inteiro.

Pr. Rodrigo Deiró

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