Quando o perdão revela o coração


 

“Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”
(Mateus 6:12)

Há palavras de Jesus que são suaves aos ouvidos, mas que queimam no coração quando compreendidas em sua plenitude. Este versículo é uma delas. Não é apenas uma petição, é uma condição. Não se trata de uma frase poética, nem de um adorno litúrgico; é um pedido que expõe o estado real do nosso coração diante de Deus. Jesus nos ensina a orar vinculando o perdão que pedimos ao perdão que oferecemos, mostrando que não há espaço para espiritualidade verdadeira onde o ressentimento é cultivado em silêncio.

Todos carregamos marcas. Há feridas abertas por palavras que nunca deveriam ter sido ditas, por atitudes que nos humilharam ou traíram, e também há culpas que tentamos justificar, minimizar ou esquecer. No entanto, o texto não nos permite terceirizar responsabilidades. Quando dizemos “assim como nós perdoamos”, colocamos diante do Senhor a medida com que estamos tratando o próximo. E isso é confrontador, porque revela que muitos querem a misericórdia do céu, mas mantêm tribunais ativos no coração. A Escritura é clara quando afirma: “Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo” (Efésios 4:32).

Perdoar não é concordar com o erro, nem chamar de leve o que foi grave. Perdoar é decidir não viver mais escravizado pela ofensa. Jesus reforça essa verdade logo adiante, ao declarar que, se não perdoarmos aos homens as suas ofensas, também o Pai celestial não nos perdoará (Mateus 6:15). Essa palavra não nos afaga; ela nos chama ao arrependimento. O rancor não fere apenas o outro; ele endurece a alma, interrompe a comunhão com Deus e impede que a graça flua livremente. Quem se recusa a perdoar ora com os lábios, mas nega com a vida aquilo que pede.

Há um engano perigoso em pensar que o tempo cura tudo. O tempo apenas revela o que foi tratado e o que foi enterrado sem cruz. Somente o perdão, gerado pela obediência e sustentado pela graça, cura de fato. Quando escolhemos perdoar, abrimos espaço para que o Espírito Santo trate aquilo que não conseguimos resolver sozinhos. E, nesse processo, somos lembrados de que também fomos alcançados quando não merecíamos, de que nossas dívidas eram impagáveis, mas foram cravadas na cruz. “Antes, sede uns para com os outros benignos” não é sugestão; é chamado para quem deseja viver debaixo do favor de Deus.

O perdão não altera o passado, mas redefine o presente e reposiciona o coração para o futuro. Ele quebra cadeias invisíveis, silencia vozes de acusação e restaura a sensibilidade espiritual. Orar o Pai Nosso com sinceridade é permitir que Deus revele se ainda há nomes presos à nossa memória, se ainda existem dívidas que insistimos em cobrar. Porque, no Reino, só permanece livre quem aprende a liberar. E quem perdoa não perde; reflete o caráter daquele que, mesmo ferido, clamou: “Pai, perdoa-lhes” (Lucas 23:34).

Pr. Rodrigo Deiró

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