Quando os olhos enganam, mas a fé enxerga


 

Existem decisões que definem não apenas o rumo de uma vida, mas o destino de gerações. Quando Deus chamou Abraão, Ele o chamou para uma jornada de fé, não de vista. Abraão obedeceu, mas levou consigo seu sobrinho Ló. Nem tudo o que vai conosco no início da caminhada foi autorizado por Deus para permanecer até o fim. Com o tempo, aquilo que parecia inofensivo começou a gerar conflito. A prosperidade cresceu, os rebanhos aumentaram e a contenda se instalou. “E houve contenda entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló” (Gênesis 13:7). O crescimento revela pesos ocultos, e Deus usa conflitos para expor a necessidade de separações que geram maturidade.

Abraão, homem de altar e comunhão, propôs a separação em paz, renunciando ao direito de escolha e entregando a decisão a Ló. Ele, então, sem buscar a voz de Deus, levanta os olhos enquanto Abraão levanta altares. “E levantou Ló os seus olhos, e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada… então, Ló escolheu para si toda a campina do Jordão” (Gênesis 13:10-11). Aos olhos humanos, aquilo parecia o paraíso. Mas o que é fértil demais para os olhos carnais pode ser deserto espiritual para o coração que não consulta à vontade divina.

Ló escolheu pelas aparências; Abraão, pela direção. E quem vive por vista sempre acaba cativo das circunstâncias. Ló se aproxima de Sodoma aos poucos. Primeiro arma suas tendas, depois passa a morar ali. O pecado raramente começa com ruptura brusca; ele se infiltra por escolhas aparentemente neutras. O resultado não tarda. A cidade entra em guerra, e Ló, junto com sua família, é levado cativo. A escolha que prometia conforto produz escravidão. Mesmo após ser resgatado por Abraão, Ló retorna para Sodoma. Isso revela um coração que foi salvo da consequência, mas não transformado na consciência. Quando o juízo finalmente chega, ele precisa fugir às pressas, advertido por anjos. “Escapa-te por tua vida; não olhes para trás de ti” (Gênesis 19:17). Sua esposa olha, porque o corpo até saiu de Sodoma, mas o coração ficou. E o apego ao passado a transforma em estátua de sal.

A história de Ló termina em uma caverna, lugar de medo, isolamento e vergonha. Aquele que escolheu a campina termina escondido nas montanhas. A falta de direção espiritual gera decisões que não apenas ferem quem escolhe, mas afetam gerações. Dos filhos nascidos daquele episódio surgem povos que se tornariam inimigos de Israel – os moabitas e os amonitas. Uma escolha feita pelos olhos produziu guerras futuras. Isso nos confronta profundamente, porque decisões espiritualmente rasas nunca têm efeitos pequenos.

Abraão, por outro lado, quando Ló se separa, recebe uma promessa ainda maior. Só depois da separação Deus amplia a visão. “[...] Levanta, agora, os teus olhos, e olha desde o lugar onde estás… porque toda esta terra que vês te hei de dar a ti e à tua semente, para sempre” (Gênesis 13:14-15). Deus não mostra tudo antes, mas honra quem confia sem ver. Abraão não escolheu pelo conforto imediato, mas pela direção eterna. Ele entendia que obedecer a Deus nem sempre é o caminho mais fácil, mas sempre é o mais seguro.

Há um tipo de olhar que destrói, e há outro que constrói. O primeiro é movido pelos sentidos. Escolhas guiadas pela emoção, pela pressa ou pela aparência podem parecer promissoras, mas conduzem à perda de propósito – “Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Provérbios 14:12). Já o segundo, pela fé, confia no Senhor, mesmo sem entender tudo, anda em segurança – “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento” (Provérbios 3:5). Deus ainda está chamando homens e mulheres a levantarem os olhos como Abraão – não para onde é mais atraente, mas para onde Ele aponta. O caminho de Deus pode não ser o mais fácil, mas é o único que termina em vida.

Por isso, antes de escolher, ore. Deus continua mostrando o melhor caminho. Nem sempre ele passa pela campina verdejante, mas sempre conduz à vida, à promessa e à eternidade. A grande pergunta não é o que seus olhos veem, mas quem governa suas escolhas. Porque quem anda como Ló busca atalhos; quem anda como Abraão caminha com Deus. E no fim, só um desses caminhos permanece.

Pr. Rodrigo Deiró

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