Mais de Ti e menos de mim: a maturidade que revela o Pai


 



A maturidade espiritual não é um conceito abstrato flutuando nas nuvens da teoria teológica, mas sim uma transformação concreta que se manifesta na forma como você responde às adversidades da vida. Pense em José do Egito: vendido como escravo pelos próprios irmãos, caluniado pela esposa de Potifar, esquecido na prisão por anos. Ele tinha todos os ingredientes para se tornar um ressentido profissional, um colecionador de mágoas, alguém que passaria a vida recontando suas injustiças. Mas quando finalmente se encontrou face a face com aqueles que o traíram, suas palavras revelaram algo extraordinário: "Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem [...]" (Gênesis 50:20). Aqui está um homem que amadureceu ao ponto de enxergar a soberania de Deus operando através da traição humana. Não havia espaço para vitimismo porque sua identidade não estava ancorada no que ela fez, mas em quem Deus era.

À medida que a identidade em Cristo se torna clara, a inveja perde a força. Quem sabe quem é, não precisa competir; quem conhece sua origem, não se distrai olhando o caminho do outro. A comparação nasce da insegurança e cresce onde falta revelação. Foi assim com Caim: ao invés de ajustar o coração, ele passou a medir sua oferta pela do irmão e deixou a inveja se transformar em ódio. Deus o advertiu dizendo que o pecado já estava à porta, desejando dominá-lo, mas ele escolheu alimentar o que não deveria (Gênesis 4:7). A comparação sempre nos empurra para longe do altar e nos aproxima da queda, porque tira os olhos da fidelidade e os fixa no desempenho alheio.

Quando Cristo cresce em nós, o “eu” perde o trono. João Batista entendeu isso com uma lucidez que confronta nossa geração: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30). Essa não é uma frase poética, é uma sentença espiritual. Enquanto o ego governa, a alma vive inquieta; quando Cristo governa, o coração descansa. É como um copo cheio de si mesmo: não há espaço para água viva. A inveja nasce da confusão de identidade; você acredita que merecia estar no lugar do outro porque não compreende o lugar específico que Deus preparou para você. Mas quando esvaziamos o “eu”, o Espírito nos enche de vida, propósito e direção.

E tudo isso converge para um princípio central que Cristo mesmo circula: "Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á" (Mateus 10:39). Quanto mais de Cristo, menos de você... não como aniquilação da personalidade, mas como realização plena do que você foi criado para ser. É o paradoxo do reino: você só se encontra quando se perde n’Ele. Pense numa semente: ela precisa morrer para se tornar árvore. Se a semente se apegar à própria forma, nunca conhecerá a glória de frutos, de oferecer sombra, de ter raízes profundas. Mas quando ela morre para si mesma, toda potencialidade escondida se manifesta.

Jesus não veio apenas para nos salvar do inferno e muito menos é apenas um exemplo a ser seguido. Ele é a própria Vida que flui através de você quando permite que Ele assuma o controle. “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6). Ele é a Vida que nos conduz a revelar o Pai, não apenas com palavras, mas com atitudes transformadas. “Eu sou a videira, vós, as varas” (João 15:5). A vara não produz fruto por esforço próprio, mas por permanência ligada à videira. Quando você se esvazia de si mesmo, não fica vazio, mas se torna cheio daquela Vida que é capaz de revelar o Pai ao mundo. E revelar o Pai não é função exclusiva de apóstolos ou profetas; é o propósito fundamental de todo aquele que carrega o nome de Cristo. Você foi feito para ser um tradutor do caráter divino numa linguagem que o mundo possa compreender. Quanto mais de Cristo em nós, menos reações carnais, menos queixas, menos disputas silenciosas. Passamos a viver não para provar valor, mas para refletir glória.

Então pare de se esconder atrás das suas feridas como se elas fossem sua identidade permanente. Pare de medir sua trajetória pela régua do outro como se Deus tivesse um molde único para todos os Seus filhos. E principalmente, pare de tentar viver a vida cristã com você ainda sentado no trono. Essa é a jornada da maturidade espiritual: sair do espelho e ir para a cruz, deixar de exigir reconhecimento e aprender a revelar o Pai. Não é perda, é ganho. Não é anulação, é alinhamento. E quem entende isso descobre que a verdadeira liberdade não está em ser visto, comparado ou aplaudido, mas em ser plenamente tomado por Cristo, a Vida que nos chama a viver para algo muito maior do que nós mesmos.

Pr. Rodrigo Deiró

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