Quando a Palavra Deixa de Ser Meta e Passa a Ser Vida



Existe uma estranha urgência dominando nossa espiritualidade. Uma pressa que não vem do Espírito, mas do nosso tempo acelerado, que transforma até a leitura da Bíblia em meta, planilha e desafio anual. “Ler a Bíblia em um ano” virou troféu espiritual, como se a Palavra de Deus fosse um jornal velho que precisa ser vencido antes que perca a validade. Mas a Bíblia não foi dada para ser corrida, foi dada para ser ruminada. Ela não foi feita para ser devorada às pressas, mas para ser saboreada lentamente, até moldar o coração, a mente e a vida.

O próprio texto sagrado nos corrige com ternura e firmeza. O salmista declara: “Oh! Quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia” (Salmos 119:97). Note o peso dessa frase. Ele não diz que a lei de Deus era sua leitura do dia, nem sua obrigação espiritual, nem seu plano anual. Ele diz que era sua meditação constante. A Palavra não passava por ele; ele permanecia nela. É a diferença entre quem olha a paisagem pela janela de um trem em alta velocidade e quem caminha por ela, sentindo o chão, o cheiro, o vento no rosto.

Fazemos piada com o Salmo 119 por causa do seu tamanho, mas essa ironia revela nossa falta de apreço pela Palavra de Deus. Rimos daquilo que exige permanência, profundidade e disciplina, porque preferimos o rápido, o raso e o emocional. Criamos uma espiritualidade viciada em sensação, em arrepio, em movimento, mas fraca em fundamento. Toda oração que não nasce da Palavra, todo clamor que não é moldado pela Escritura, toda adoração que não é guiada pela verdade revelada não passa de emocionalismo ignorante ou, pior ainda, carnalidade travestida de fé.

Somos uma geração que ama o “mover”, mas despreza o texto. Celebramos o barulho, mas rejeitamos o silêncio da meditação. Queremos Deus agindo, mas não queremos Deus falando. Esquecemos que o Espírito Santo nunca se move em contradição à Palavra que Ele mesmo inspirou. A Bíblia não é combustível para experiências místicas desconectadas; ela é o trilho por onde o mover verdadeiro de Deus acontece.

Pare de apenas ler a Bíblia. Comece a meditar nela. Comece a amá-la. Comece a se deleitar nela. A Palavra não transforma porque foi lida, mas porque foi acolhida, guardada e obedecida. A Escritura é como alimento sólido: não adianta engolir rápido; é preciso mastigar, digerir, deixar virar força. Quem tenta viver de leituras apressadas acaba espiritualmente anêmico, vulnerável a qualquer vento de doutrina.

Os grandes homens e mulheres que conhecem profundamente a Bíblia não são aqueles que “já terminaram” a leitura, mas os que caminham com ela há décadas. Estudiosos que leem a Escritura há trinta, quarenta, sessenta anos, ainda se curvam em humildade e dizem: “Eu ainda tenho muito a aprender”. Enquanto isso, nós, impacientes, fazemos planos anuais como se o problema da nossa fé fosse falta de velocidade, e não falta de profundidade.

É por isso que a igreja sofre, o povo é enganado, e surgem falsos líderes todos os dias. Onde a Palavra não é conhecida, qualquer discurso convence. Onde a Bíblia não é meditada, qualquer experiência parece espiritual. Onde não há raiz, toda novidade vira revelação.

Então escute com seriedade: não leia a sua Bíblia em um ano como se isso fosse um fim em si mesmo. Isso, sozinho, não serve para nada. Mas passe o ano inteiro estudando a sua Bíblia, permitindo que ela leia você, confronte você, quebre e reconstrua você. Isso sim fará toda a diferença. Porque não é a quantidade de páginas lidas que transforma uma vida, mas a profundidade da Palavra que permanece no coração.

Pr. Rodrigo Deiró

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