Sangrando mas servindo
Seguir a Jesus é aceitar
um caminho que não combina com aplausos fáceis nem com conforto permanente. É
entender que, muitas vezes, você estará fazendo curativos em feridos enquanto
você mesmo ainda está sangrando. E isso não é contradição, é discipulado.
O próprio Senhor disse em
Mateus 16:24: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo,
tome sobre si a sua cruz e siga-me”. Cruz não é símbolo decorativo, é
instrumento de morte. Seguir a Cristo é morrer para o ego, para a
autopreservação exagerada e para a necessidade de estar sempre inteiro antes de
servir. Há pessoas esperando ficarem completamente curadas para então cuidar de
alguém, mas no Reino de Deus muitas vezes o processo de cura acontece enquanto
você serve.
Olhe para o apóstolo
Paulo. Em 2 Coríntios 4:8-9 ele declara: “Em tudo somos atribulados, mas
não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não
desamparados; abatidos, mas não destruídos”. Ele estava machucado,
pressionado, perseguido, e ainda assim continuava levantando igrejas,
encorajando irmãos, escrevendo cartas que atravessariam séculos. Paulo
sangrava, mas não parava. Ele não esperou a tempestade cessar para continuar
sendo boca de Deus.
Imagine um soldado em
batalha que, mesmo ferido, se arrasta até o companheiro caído para estancar o
sangue dele. Ele sabe que também precisa de socorro, mas entende que, se não
agir, o outro morre. Isso é amor sacrificial. Foi exatamente isso que Jesus fez
por nós. Isaías 53:5 diz: “Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões
e moído pelas nossas iniquidades”. Ele curava enquanto era ferido. Ele
restaurava enquanto era rejeitado. Ele perdoava enquanto era crucificado.
Seguir a Jesus é
participar dessa lógica do Reino que confronta o nosso egoísmo. É visitar
alguém no hospital mesmo quando sua alma também está cansada. É aconselhar um
casal em crise enquanto você luta em oração pela sua própria casa. É subir ao
púlpito com o coração apertado, mas com a convicção de que a Palavra continua
sendo viva e eficaz. Não é hipocrisia, é fidelidade. Não é fingir que não dói,
é decidir que a dor não vai te paralisar.
Paulo ainda escreve em 2
Coríntios 4:16: “Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem
exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia”.
Existe um mistério aqui. Quando você derrama graça sobre alguém mesmo estando
em processo, algo dentro de você é renovado. É como um poço que, quanto mais
água tira, mais água brota. O Reino de Deus não funciona na lógica da escassez,
mas da fé.
Isso não significa
ignorar limites ou desprezar cuidado pessoal. Significa entender que Deus não
exige perfeição para usar você. Ele usa vasos de barro. Ele usa gente rachada,
mas disponível. O problema é que muitos querem servir apenas quando estiverem fortes,
seguros e estáveis. Só que, se fosse assim, quase ninguém serviria. A igreja é
um hospital onde médicos também já foram pacientes e, às vezes, ainda estão em
tratamento.
Seguir a Jesus é aceitar
que haverá dias em que suas lágrimas cairão no travesseiro à noite, depois de
ter passado o dia fortalecendo outros. E ainda assim você continuará, porque
não está seguindo um projeto, está seguindo uma Pessoa. E essa Pessoa prometeu
em Hebreus 13:5 que não nos deixaria, nem nos desampararia.
Você pode estar sangrando
hoje. Pode estar cansado, pressionado ou enfrentando lutas que ninguém vê. Mas
se o Espírito Santo colocar alguém diante de você precisando de cuidado, não
endureça o coração. Talvez o milagre que você espera venha enquanto você se
torna resposta na vida de outro. No Reino, quem consola também é consolado.
Quem levanta também é levantado.
Seguir a Jesus é isso. É amar quando dói. É servir quando cansa. É permanecer quando seria mais fácil desistir. E no fim, você descobrirá que, enquanto fazia curativos nos outros, o próprio Cristo estava tratando as suas feridas.
Pr. Rodrigo Deiró



Que Deus me liberte dessa prisão espiritual para que eu possa servi-lo com dignidade. Amém
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