O amor que vigia e ora


 

Há uma forma de amor que quase ninguém vê, aplaude e comenta. É o amor que se ajoelha em secreto para falar com Deus em favor de outra pessoa. Não há gesto mais profundo, mais sincero e mais poderoso do que esse. Não é por acaso que Charles Spurgeon disse que ninguém pode nos fazer um carinho mais verdadeiro neste mundo do que orar por nós.

No Getsêmani, pouco antes da cruz, vemos uma das cenas mais humanas e dolorosas da vida de Jesus. O Filho de Deus, que acalmou tempestades, curou enfermos e ressuscitou mortos, agora se encontra profundamente angustiado. A Bíblia diz que Ele começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. O peso da cruz se aproximava, o cálice do sofrimento estava diante d’Ele, e naquele momento Ele não buscou multidões, nem aplausos, nem discursos. Ele buscou companhia em oração.

Então Jesus pediu algo simples aos Seus discípulos. Não pediu que lutassem, não pediu que resolvessem nada. Pediu apenas que vigiassem com Ele. Pediu presença. Pediu sensibilidade. Pediu que estivessem espiritualmente acordados naquele momento de dor. Mas quando voltou, encontrou silêncio e descuido. Encontrou homens dormindo.

A pergunta que Jesus fez atravessa os séculos como uma flecha no coração da igreja: “Então, nem uma hora pudeste vigiar comigo? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:40-41).

Imagine a cena. O Salvador suando com gotas de sangue em agonia espiritual, e aqueles que caminharam com Ele por três anos dormindo a poucos metros de distância. O Getsêmani revela que às vezes estamos tão cansados, tão envolvidos com nossas próprias preocupações, que não percebemos a dor de quem está ao nosso lado.

Muitos cristãos amam, mas poucos intercedem. Muitos dizem “estou contigo”, mas poucos dobram os joelhos de fato. E existe uma diferença enorme entre simpatia e intercessão. Simpatia é dizer que se importa. Intercessão é entrar na batalha espiritual por alguém.

Orar por outra pessoa é como segurar a corda de alguém que está descendo a um vale profundo. Talvez ela esteja fraca demais para orar, confusa demais para lutar e cansada demais para continuar. Nesse momento, Deus levanta intercessores que seguram a corda da fé até que aquele irmão consiga se levantar novamente.

A igreja é chamada de corpo exatamente por isso. Quando uma parte sofre, todo o corpo deveria sentir. Quando um irmão está lutando, o restante do corpo deveria se mover em oração. O problema é que muitas vezes estamos presentes fisicamente, mas ausentes espiritualmente, como os discípulos no jardim.

Quantas pessoas ao nosso redor estão vivendo seus próprios Getsêmanis? Gente que sorri no culto, mas chora em casa. Pessoas que continuam servindo, mas estão espiritualmente exaustas. Irmãos que não têm mais forças nem para organizar as próprias palavras em oração.

É nesses momentos que a intercessão se torna um ato de amor profundo. Às vezes Deus não espera que você resolva o problema de alguém. Ele espera apenas que você vigie com essa pessoa em oração. Enquanto você ora pela causa de alguém, Deus observa o seu coração. Enquanto você se torna voz diante do trono por quem está fraco, Deus se move em favor das suas próprias batalhas.

A intercessão nos tira do centro da nossa própria vida. Ela quebra o egoísmo silencioso que nos faz pensar apenas nas nossas necessidades. Ela nos lembra que o Reino de Deus é construído por pessoas que carregam cargas umas das outras.

Talvez você não possa mudar a situação de alguém com palavras. Talvez você não tenha conselhos suficientes. Mas existe algo que sempre podemos fazer. Podemos entrar no lugar secreto e dizer: “Senhor, fortalece essa vida. Sustenta esse irmão. Dá graça onde há fraqueza”. E muitas vezes, enquanto alguém dorme cansado na luta da vida, existe um intercessor de joelhos mantendo a chama da esperança acesa diante de Deus.

Seja esse tipo de pessoa. Não seja apenas alguém que observa as dores ao redor. Seja alguém que vigia. Seja alguém que ora. Seja alguém que segura a corda. Porque neste mundo cheio de ruídos e distrações, um dos gestos mais profundos de amor ainda continua sendo aquele que quase ninguém vê: alguém dobrando os joelhos e orando a Deus por outra pessoa.

Pr. Rodrigo Deiró

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