Viva Como Filho, Não Como Órfão
Quando Jesus ensinou a
oração do “Pai nosso” em Mateus 6:9, Ele não estava apenas organizando palavras
para uma liturgia bonita; Ele estava nos entregando uma identidade que
confronta a nossa insegurança mais profunda. Ele estava dizendo quem somos:
Filhos. Então, não diga “Pai nosso” pela manhã e depois atravesse o restante do
dia como se estivesse sozinho no mundo.
Chamar Deus de Pai é um
ato espiritual que rasga o véu da orfandade. Não é poesia religiosa, é
declaração de pertencimento. É assumir que fomos adotados, reconciliados e
trazidos para dentro de uma casa onde há mesa, direção e correção. Um órfão
espiritual vive tentando sobreviver, calcula cada passo com medo de perder e
sente-se constantemente ameaçado. Já o filho descansa porque sabe que não está
negociando amor, mas o está recebendo. O órfão tenta provar valor; o filho vive
a partir do valor que já recebeu.
O apóstolo Paulo escreveu
na Epístola aos Romanos 8:15: “não recebestes o espírito de escravidão,
para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de
filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai”. Perceba que escravidão e adoção
não convivem no mesmo coração. Ou você vive dominado pelo medo de ser
rejeitado, ou você vive firmado na certeza de que foi acolhido. Escravo obedece
por pavor; filho obedece por amor. Escravo trabalha para não ser punido; filho
trabalha porque faz parte da casa.
É incoerente levantar as
mãos pela manhã e dizer “Pai nosso” e, horas depois, agir como se tudo
dependesse exclusivamente da sua força. Se Ele é Pai, há provisão mesmo quando
o cenário parece escasso. Se Ele é Pai, há direção mesmo quando a estrada está nublada.
Se Ele é Pai, há disciplina que dói, mas que molda. Um pai que ama não
abandona, corrige. Às vezes confundimos correção com rejeição porque ainda
pensamos como órfãos. Mas disciplina é prova de pertencimento, não de exclusão.
Talvez sua história esteja
marcada por ausência. Talvez você tenha conhecido o silêncio de um pai que não
esteve presente, a frieza de uma rejeição ou a dor de um abandono. Isso cria
uma lente distorcida pela qual você tenta enxergar a Deus. Mas o Pai revelado
por Cristo não falha, não se atrasa e não se arrepende de amar. Ele não se
cansa de sustentar. No Evangelho de João 1:12 está escrito que “a todos
quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”.
Poder de serem feitos filhos. É posição espiritual. Não depende do seu humor do
dia, depende da graça que o alcançou.
Viver como filho muda a
maneira como você enfrenta a ansiedade. O órfão acumula porque tem medo de
faltar. O filho confia porque sabe que há um Pai que vê em secreto e
recompensa. O órfão se compara, compete e se desespera para ser notado. O filho
serve com fidelidade, mesmo quando ninguém aplaude, porque sabe que os olhos do
Pai estão sobre ele. O órfão carrega o peso do mundo nos ombros. O filho
aprende a lançar sobre Ele toda a sua ansiedade, porque entende que não foi
chamado para ser Deus de si mesmo.
Imagine uma criança
atravessando uma rua movimentada. Se ela estiver sozinha, cada carro é uma
ameaça. Mas se estiver segurando firmemente a mão do pai, o cenário é o mesmo,
porém a experiência é diferente. A segurança não está na ausência de carros,
está na presença do pai. A vida cristã não promete ausência de lutas, promete
presença constante. O problema é que muitos soltam a mão pela incredulidade e
depois reclamam da insegurança.
Hoje não é dia apenas de
repetir uma oração conhecida. É dia de alinhar comportamento com identidade. Se
você diz “Pai nosso”, então decida como filho. Pare de negociar princípios para
ser aceito por pessoas. Pare de se desesperar como se estivesse desamparado.
Pare de viver como se não houvesse herança. Filho carrega sobrenome, e o nosso
é eterno.
Ore como filho, não como quem implora migalhas, mas como quem confia no caráter do Pai. Ande como filho, com maturidade, sabendo que representa a família. Confie como filho, mesmo quando não entende todos os caminhos. Não transforme a oração em discurso vazio. Deixe que cada vez que seus lábios pronunciarem “Pai nosso” seu coração seja lembrado de quem você é. Não diga “Pai nosso” e viva como órfão. Viva de tal maneira que o céu reconheça em você a segurança de quem sabe a quem pertence.
Pr. Rodrigo Deiró



Amém
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