Da ferida à vida
Nem todo afastamento
nasce da rebeldia. Há histórias que começaram com sede de Deus, com entrega
sincera, mas que no caminho foram atravessadas por decepções, sobrecargas e
experiências que desorganizaram a fé. Gente que não se distanciou de Deus, mas
daquilo que viveu em nome d’Ele. E essa diferença é mais profunda do que
parece. Porque quando a dor se mistura com o sagrado, ela não apenas machuca,
ela confunde.
Cansar é compreensível.
Sentir-se ferido também. Há pesos que não deveriam ter sido colocados sobre
você, há palavras que não representaram o coração de Deus, há ambientes que, em
vez de curar, apertaram ainda mais a ferida. E diante disso, se afastar pode
ter sido um mecanismo de sobrevivência espiritual. Como alguém que sai de um
lugar com fumaça para conseguir respirar. Só que respirar fora não foi o
destino, foi apenas o intervalo.
O problema não está em
ter saído. O problema começa quando esse lugar de afastamento se transforma em
morada. Quando a pausa vira permanência. Quando a dor passa a definir a fé. O
evangelho não ignora o que você sentiu, mas também não permite que isso se
torne o ponto final da sua história. Deus não te chamou para viver reagindo ao
que aconteceu, mas para ser transformado pela verdade.
O livro de Efésios 4:13 declara
que devemos chegar à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão
perfeito, à medida da estatura completa de Cristo. Isso não é um convite
opcional. É um chamado ao crescimento. E crescimento exige movimento. Não dá
para permanecer no mesmo lugar onde tudo se quebrou e esperar que algo novo
floresça. É preciso reconstruir, mas não sobre a base da dor, e sim sobre a
base da verdade.
Aquilo que não é tratado
não desaparece. Ele se esconde, se disfarça, mas continua influenciando
decisões, percepções e reações. É como uma ferida que cicatrizou por fora, mas
ainda infecciona por dentro. Você pode até seguir vivendo, mas carrega limitações
invisíveis. E na fé isso é ainda mais sério, porque passa a enxergar Deus
através da lente daquilo que te feriu.
Maturidade espiritual não
é negar o que aconteceu. Não é fingir que não doeu. Mas também não é construir
toda a sua caminhada a partir disso. É olhar com verdade, separar o que foi
Deus do que foi humano, e escolher não prender o seu futuro ao erro de alguém.
É sair da posição de quem apenas sofreu e assumir a responsabilidade de quem
decidiu crescer.
Jesus nunca prometeu que
pessoas não falhariam. Mas prometeu que Ele permaneceria. Em Mateus 11:28 está
escrito: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos
aliviarei”. O convite continua válido. Não para voltar a um sistema, a
uma rotina vazia ou a um ambiente que te feriu, mas para voltar a Ele. Para
reencontrar a essência, sem as distorções que foram acumuladas no caminho.
No fim, não se trata de
retornar a um lugar físico. Trata-se de reposicionar o coração. De voltar para
Cristo com consciência, com verdade, sem máscaras e sem carregar aquilo que não
veio d’Ele. Porque enquanto você permanecer preso ao que aconteceu, continuará
vivendo em função disso. Mas quando decide reconstruir, começa a viver em
função daquilo que Deus ainda quer fazer.
A dor pode explicar onde você parou. Mas não pode decidir onde você vai ficar.
Pr. Rodrigo Deiró


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