Entre a redenção e a esperança


 

Naquela noite da Ceia, nada foi acidental, nada foi simbólico. Cada gesto carregava peso eterno. Existe algo profundamente intencional naquilo que Jesus fez e também naquilo que Ele deixou de fazer.

A tradição da Páscoa, instituída desde o Êxodo, não era apenas uma refeição, era uma narrativa viva. O primeiro cálice, o da santificação, lembrava que Deus separa um povo para si. O segundo, o da libertação, apontava para o livramento da escravidão. O terceiro, o da redenção, celebrava o preço pago para resgatar aquele povo. E o quarto, o da esperança, olhava para frente, para a promessa de que Deus ainda completaria tudo.

Naquela mesa, Jesus não apenas participou dessa tradição, Ele a cumpriu. Quando tomou o terceiro cálice e declarou que “Este cálice é o novo testamento no meu sangue” (1 Coríntios 11:25), Ele não estava apenas reinterpretando um símbolo. Ele estava dizendo com autoridade que o preço da redenção não seria mais lembrado, seria consumado. O cordeiro não seria mais figura, seria Ele mesmo. O sangue não seria mais de animais, seria o d’Ele. A antiga aliança escrita em tábuas cedia lugar à nova, escrita no coração, como profetizado em Jeremias 31:31.

Mas então vem o silêncio que poucos percebem. O quarto cálice não foi bebido. E isso não foi esquecimento. Foi decisão. Jesus diz em Mateus 26:29 que não beberia do fruto da vide até aquele dia em que o beberia de novo no Reino de Seu Pai. Em outras palavras, Ele interrompe a sequência. Ele deixa a última parte da história em aberto. O cálice da esperança não é celebrado naquela mesa porque a obra ainda não estava completa.

Nós gostamos de viver como se tudo já estivesse resolvido. Queremos a promessa sem o processo, a glória sem a cruz, o Reino sem a espera. Mas Jesus, na Ceia, nos ensinou que há um intervalo entre a redenção e a consumação. Ele bebeu o cálice da redenção, mas recusou o da esperança naquele momento, porque a esperança verdadeira não é antecipação ilusória, é certeza futura. Ele sabia que ainda viria a cruz, o sofrimento, o abandono e o peso do pecado sendo colocado sobre Ele. Ele sabia que antes do banquete do Reino, haveria o Getsêmani. E no Getsêmani, ironicamente, aparece outro cálice, não de vinho, mas de dor. “Pai, se possível, passa de mim este cálice” (Mateus 26:39). Ele não recusou esse, bebeu até o fim.

Percebe a profundidade disso? Ele deixou de beber o cálice da esperança na mesa para beber o cálice da ira na cruz. Para que nós, um dia, possamos beber com Ele o cálice da esperança no Reino. Isso muda tudo. Porque a nossa esperança não está baseada no que vemos agora. Não está na circunstância, não está na estabilidade da vida, não está na ausência de dor. A nossa esperança está suspensa em uma promessa que ainda será plenamente cumprida. Estamos vivendo entre o terceiro e o quarto cálice.

E é exatamente aqui que muitos se perdem. Vivem como se Deus tivesse terminado a obra quando, na verdade, Ele apenas garantiu o final. A redenção foi consumada, mas a restauração completa ainda está por vir. Por isso ainda há lágrimas, ainda há luta, ainda há espera.

Mas há uma mesa preparada. E há um cálice reservado. Jesus não esqueceu. Ele adiou. E adiou porque decidiu incluir você nesse momento. Ele não vai beber sozinho. Ele disse que beberia “convosco”. Isso é pessoal. Isso é relacional. Isso é promessa.

Então, quando a vida parecer incompleta, quando parecer que algo ainda falta, quando o coração perceber que essa terra não satisfaz completamente, não é defeito da fé, é evidência dela. Você foi criado para um cálice que ainda não foi servido.

Viva como quem já foi redimido, mas ainda aguarda a plenitude. Não negocie sua esperança por alívios temporários. Não troque o eterno pelo imediato. Há um dia marcado, há um Reino estabelecido, há um encontro preparado.

E naquele dia, finalmente, o quarto cálice será erguido.

Pr. Rodrigo Deiró

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