O remédio amargo das mãos de Deus
Há caminhos pelos quais
Deus nos conduz que não fazem sentido à primeira vista. Caminhos que apertam o
coração, silenciam a alma e nos levam a lugares onde não temos respostas. São
dias em que a oração parece não passar do teto, noites em que o silêncio de
Deus pesa e o coração pergunta onde Ele está.
É nesse ponto que muitos
se confundem. Associam a presença de Deus ao alívio imediato e à ausência de
dor. Mas a Palavra nunca prometeu ausência de dor, prometeu propósito. Existe
uma grande diferença entre sofrer sem sentido e ser tratado pelas mãos de Deus.
O que parece amargura nem sempre é abandono. Muitas vezes é tratamento.
Como uma mãe que segura o
filho nos braços e, mesmo vendo suas lágrimas, insiste em dar um remédio amargo
porque sabe que aquilo vai salvá-lo, assim é Deus. O filho não entende. Ele
chora, resiste, rejeita. Na sua visão limitada, aquilo é dor sem explicação.
Mas na perspectiva da mãe, é amor em ação. É cuidado que não se rende ao
desconforto momentâneo, porque está comprometido com a vida. Assim também Deus
age conosco.
Nós pedimos alívio, mas
Deus trabalha transformação. Nós queremos que a dor cesse, mas Deus olha para o
que ela pode produzir. Enquanto vemos o agora, Ele trabalha com a eternidade. A
Bíblia diz em Romanos 8:28: “E sabemos que todas as coisas contribuem
juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por
seu decreto”. Todas as coisas. Inclusive aquilo que você não entende e
até gostaria de apagar da sua história. Isso confronta porque revela que Deus
não age apenas no que é confortável. Muitas vezes Ele trabalha justamente no
que é difícil.
Há dores que expõem nosso
orgulho. Situações que revelam o quanto confiávamos mais em nós mesmos do que
em Deus. Circunstâncias que derrubam estruturas que pareciam firmes, mas nunca
estiveram realmente fundamentadas n’Ele. Quando isso acontece não é Deus
destruindo você, mas Deus te livrando de algo que não poderia te sustentar.
O sofrimento, nas mãos de
Deus, se torna uma oficina. Um lugar onde o caráter é moldado e a fé deixa de
ser discurso para se tornar dependência real. É ali que aprendemos a confiar
quando não vemos, a permanecer quando tudo dentro de nós quer desistir. Como o
ouro no fogo, que não é destruído mas purificado, assim é a fé. O fogo revela
impurezas e produz valor. O processo é intenso, mas o resultado é precioso.
Muitos querem uma fé
forte, mas rejeitam os processos que a fortalecem. Querem profundidade, mas
fogem da dependência. Querem maturidade, mas resistem ao quebrantamento. Mas
Deus ama demais para nos deixar rasos.
Há lágrimas que ninguém
viu, dores que ninguém entendeu, momentos em que você se sentiu sozinho. Mas
Deus estava ali. Nem todo agir d’Ele é visível, mas sempre é real. Cada lágrima
se torna instrumento de graça. Cada luta, um cenário de transformação. Cada
dor, um caminho para mais perto d’Ele.
Nós queremos respostas
rápidas, mas Deus constrói profundidade. Queremos escapar da dor, mas Deus quer
nos ensinar por meio dela. E no meio disso tudo existe um chamado, confiar. Confiar
quando não entende. Confiar quando dói. Confiar quando tudo parece contrário. Porque
chegará o dia em que você olhará para trás e entenderá. Aquilo que parecia te
destruir estava te sustentando. O que você rejeitou foi o que te preservou. O
remédio era amargo, mas o amor que o entregou era perfeito.
Deus não desperdiça dor.
Não permite lágrimas sem propósito. Tudo o que Ele faz está alinhado com um
plano maior. Se hoje você está nesse lugar, não endureça o coração. Não
confunda dor com abandono. Pode ser que Deus esteja mais perto do que nunca,
trabalhando mais profundamente do que você imagina. E quando o processo
terminar, você não será o mesmo. Sua fé será mais firme, seu coração mais
rendido e sua dependência mais verdadeira.
Porque nas mãos de Deus, até o que fere se transforma em cura.
Pr. Rodrigo Deiró



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