Construindo sobre terrenos marcados
Há pessoas que entram no
casamento acreditando que estão começando uma nova história, quando, na
verdade, estão apenas continuando histórias antigas sem perceber. Pensam que
estão construindo algo do zero, mas não estão. Um casamento se parece muito
mais com a construção de uma casa sobre um terreno que já teve moradores,
memórias, marcas, rachaduras, fundações antigas e até escombros enterrados.
Você pode levantar paredes novas, pintar com novas cores, colocar móveis novos
e criar uma estética diferente, mas se não conhecer o solo onde está
construindo, cedo ou tarde aquilo que estava escondido aparecerá.
É exatamente isso que
Deus está revelando quando diz em Êxodo 20:5-6, “Não te encurvarás a elas
nem as servirás; porque eu, o Senhor, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a
maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me
aborrecem e faço misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus
mandamentos”. Esse texto não está decretando condenação hereditária.
Deus não está dizendo que filhos estão destinados a pagar eternamente pelos
erros dos pais. Deus está revelando um princípio espiritual e humano
profundamente real. Aquilo que não é tratado tende a ser transmitido. Aquilo
que não é confrontado tende a ser repetido. Aquilo que não é curado tende a
ferir novamente.
Muitos casamentos estão
sofrendo não por falta de amor, mas por excesso de bagagem não identificada. Há
homens que se calam diante dos conflitos porque cresceram em casas onde
conversar era sinal de fraqueza. Há mulheres que vivem em estado de defesa porque
foram criadas em ambientes onde amar significava sobreviver. Há pessoas que
explodem por qualquer coisa, não porque são más, mas porque aprenderam que
gritar era a única forma de serem ouvidas. Há cônjuges que controlam tudo
porque cresceram em ambientes onde perder o controle significava viver em caos.
E então, quando o casamento começa a apertar, não reage apenas o adulto que
está ali. Reage também a criança que nunca foi tratada.
Por isso a Bíblia diz, em
1 Tessalonicenses 5:21, “Examinai tudo. Retende o bem”. Examinar
tudo significa parar de viver no automático. Significa perguntar de onde vem
essa minha reação, porque eu me fecho, porque eu agrido, porque eu fujo, porque
eu sempre interpreto amor como ameaça, porque eu preciso vencer toda discussão.
Maturidade não é apenas crescer. Maturidade é se investigar diante de Deus.
E quando essa luz chega,
uma decisão precisa ser tomada. Paulo escreve em Romanos 12:2: “Não vos
conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”.
Nem tudo o que você recebeu precisa continuar em você. Nem toda herança merece
continuidade. Alguns receberam honra, fé, disciplina e princípios. Outros
receberam silêncio, abandono, manipulação, frieza ou violência emocional. A
questão não é o que chegou até você. A questão é o que vai parar em você.
“Assim que, se
alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios
5:17). Não é poesia. É realidade espiritual. Em Cristo, o passado pode explicar
você, mas não pode governar você. Em Cristo, aquilo que moldou sua infância não
precisa determinar seu casamento. Em Cristo, ciclos podem ser quebrados,
palavras podem ser ressignificadas, memórias podem ser curadas e padrões podem
morrer.
Por isso o casamento
nunca será apenas convivência. O casamento é construção. Como diz a Bíblia em Eclesiastes
4:9, “Melhor é serem dois do que um”. Dois não apenas para
caminhar juntos, mas para construir juntos. Construir com consciência.
Construir com verdade. Construir com coragem.
Você herdou mais do que imagina. Herdou medos, respostas, crenças, hábitos e até silêncios. Mas em Deus, herança não é sentença. O que chegou até você não precisa terminar em você. E talvez o maior ato de amor dentro de um casamento não seja dizer “eu te amo”, mas decidir, diante de Deus, “comigo certos ciclos terminam”.
Pr. Rodrigo Deiró


Comentários
Postar um comentário