Não saia do lugar de cura

 



Há uma armadilha sutil, quase imperceptível, que tem levado muitas pessoas a se distanciarem da presença de Deus, e, na maioria das vezes, ela se apresenta com o rosto da decepção. Não é o pecado escancarado, não é a incredulidade declarada, não é a perseguição do mundo. Muitas vezes, o que tem tirado pessoas da igreja são pessoas. São palavras mal colocadas, atitudes incoerentes, líderes que falharam, irmãos que decepcionaram ou ambientes que não corresponderam às expectativas. E então muitos usam isso como justificativa para abandonar aquilo que Deus nunca mandou abandonar.

Mas quando olhamos para Jesus, vemos exatamente o contrário. A Bíblia declara no Evangelho de Lucas que “E, chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga...” (Lucas 4:16). Não foi uma visita ocasional. Era costume. Era constância. Era compromisso. E Jesus sabia exatamente quem estava ali. Ele conhecia os corações. Sabia da religiosidade vazia, do orgulho escondido e da hipocrisia disfarçada de santidade. Sabia que muitos O observavam não para aprender, mas para acusar. Mesmo assim, Ele foi. E isso precisa confrontar nosso coração.

Jesus nunca condicionou Sua presença à perfeição das pessoas. Ele não procurava ambientes impecáveis. Ele procurava ambientes necessitados. Ele se manifestava justamente onde havia dor, cegueira, dureza, tradição sem vida e almas precisando de transformação. Porque o propósito de Deus nunca foi encontrar um lugar perfeito. O propósito de Deus sempre foi alcançar pessoas imperfeitas.

Hoje, muitos dizem que amam Jesus, mas não suportam conviver com gente quebrada. Dizem que foram feridos na igreja, como se a igreja fosse composta por anjos e não por seres humanos em processo. Querem um altar sem falhas, uma comunidade sem conflitos, uma liderança sem limitações, irmãos sem defeitos. Mas isso não existe deste lado da eternidade.

A própria Palavra já nos alertava. No Livro de Jeremias está escrito: “Maldito o homem que confia no homem...” (Jeremias 17:5). Quem coloca sua fé em pessoas sempre encontrará motivo para cair. Porque homens falham. Homens prometem e não cumprem. Homens machucam. Homens decepcionam. Se sua permanência depende da fidelidade humana, sua caminhada será instável. Mas se sua permanência está firmada em Deus, ninguém consegue arrancar você do lugar que Ele preparou.

A igreja nunca foi um palco para santos prontos. A igreja sempre foi um hospital para almas em tratamento. Alguns estão aprendendo a andar. Outros estão reaprendendo a confiar. Alguns ainda carregam feridas abertas. Outros escondem cicatrizes profundas atrás de um sorriso. E aqui está a grande ironia: quem abandona o hospital porque encontrou doentes, sai carregando a mesma dor que poderia ter sido curada.

Imagine alguém entrando numa enfermaria, olhando ao redor e dizendo: “Não fico aqui, há gente doente demais”. Parece absurdo. Mas espiritualmente, muitos estão fazendo exatamente isso. Jesus continua chamando pessoas imperfeitas para um lugar imperfeito, para serem transformadas por um Deus perfeito.

Por isso, permaneça. Permaneça quando for difícil. Permaneça quando não entender. Permaneça quando lágrimas escorrerem em silêncio. Permaneça quando alguém falhar com você. Permaneça quando o ambiente não corresponder ao que você imaginou. Porque Deus continua sendo Deus, independentemente das pessoas.

No Evangelho de Mateus está escrito: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mateus 5:8). Quem olha para homens, tropeça. Quem olha para Deus, permanece. Quem vive de expectativas humanas vive colecionando frustrações. Mas quem fixa os olhos no Senhor encontra força para continuar.

A decepção com pessoas não pode ser maior que o seu compromisso com Deus. Não saia do lugar onde Deus quer curar você só porque alguém ao seu lado ainda está doente. Permaneça. Porque quem permanece, vê Deus agir.

Pr. Rodrigo Deiró

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