O cristão que ainda não sou

 



Existe um tipo de dor que poucos conseguem explicar. Ela não nasce de perdas, de perseguições, de portas fechadas ou de batalhas externas. Ela nasce dentro. No lugar mais escondido da alma. É a dor de olhar para si mesmo com honestidade e perceber que existe uma distância entre quem você é e quem Deus te chamou para ser. Foi exatamente esse sentimento que levou Charles Spurgeon a declarar: “Toda vez que penso no cristão que deveria ser, sinto vergonha deste que sou”.

Essa não é a vergonha de quem foi exposto diante dos homens. É a vergonha de quem foi exposto diante da verdade. Existe uma diferença entre ser confrontado por pessoas e ser confrontado por Deus. Pessoas veem comportamentos. Deus vê motivações. Pessoas enxergam o culto que você entrega. Deus enxerga o coração com que você cultua. Pessoas veem as mãos levantadas. Deus vê as áreas que continuam fechadas. Pessoas escutam suas palavras espirituais. Deus conhece os lugares onde sua rendição ainda não chegou. E é aqui que muitos se perdem, porque aprenderam a construir aparência, mas nunca permitiram transformação.

Seguir a Cristo nunca foi sobre parecer santo. Nunca foi sobre aprender o vocabulário do Evangelho, decorar versículos ou frequentar reuniões religiosas. Seguir a Cristo sempre foi sobre morrer. No Evangelho de Lucas Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23). Negar-se não é um evento. É uma sentença diária contra o ego. É olhar para a própria vontade e dizer não. É confrontar o orgulho escondido. É calar a carne quando ela quer dominar. É escolher obedecer quando tudo dentro de você quer resistir.

Quantos aprenderam a dizer “Deus é tudo”, mas ainda vivem como se Ele fosse apenas uma parte da agenda. Entregam o domingo, mas não entregam a segunda. Entregam o culto, mas não entregam o caráter. Entregam os lábios, mas não entregam as intenções. Cantam sobre santidade enquanto alimentam pecados secretos. Falam de confiança enquanto vivem dominados pela ansiedade. Pregam perdão enquanto escondem mágoas que apodrecem em silêncio.

E o mais impressionante é que ninguém talvez perceba. A família pode não perceber. A igreja pode não perceber. Os amigos podem não perceber. Mas a alma sabe. No secreto, quando o barulho termina, quando as luzes se apagam, quando não existe plateia, existe uma voz dentro de você dizendo que ainda falta rendição. E esse incômodo, embora doa, não é condenação. É misericórdia.

Porque o pior estado de um cristão não é quando ele chora por ainda não ser quem deveria. O pior estado é quando ele já não sente mais nada. Quando o pecado não incomoda. Quando a incoerência não confronta. Quando a distância de Deus parece normal.

Na Segunda Epístola aos Coríntios está escrito: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos” (2 Coríntios 13:5). Isso não é uma sugestão. É um chamado. Um convite para parar de medir espiritualidade pela aparência e começar a medir pela verdade.

Deus nunca esteve à procura de pessoas impecáveis. Deus sempre procurou corações quebrantados. Pessoas que tenham coragem de entrar no quarto, fechar a porta, olhar para dentro e admitir: “Senhor, eu ainda não sou quem deveria ser”. E, paradoxalmente, é exatamente aí que a transformação começa.

Porque no fim, a pergunta não é o quanto você parece cristão diante das pessoas. A pergunta que realmente importa é quanto de Cristo vive, governa e respira dentro de você.

Pr. Rodrigo Deiró

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