Sem máscaras
Existem casamentos onde
tudo parece funcionar. A casa está organizada, as contas estão pagas, os
compromissos estão em dia, as fotos nas redes sociais transmitem felicidade, os
filhos parecem bem, a rotina segue normalmente e, para quem observa de fora, tudo
parece saudável. Mas existem casas onde as portas estão abertas e, ainda assim,
os corações permanecem trancados. Existem casais que dividem a mesma mesa,
compartilham o mesmo quarto, dormem na mesma cama e, mesmo assim, vivem como
estranhos emocionais. Sabem os horários um do outro, conhecem as preferências,
sabem o que o outro gosta de comer, conhecem hábitos, manias e costumes, mas
não conhecem mais a alma um do outro.
É possível conviver sem
realmente conhecer. É possível tocar um corpo sem alcançar um coração. É
possível estar perto fisicamente e, ainda assim, emocionalmente a quilômetros
de distância.
A Palavra de Deus nos
leva de volta ao princípio e declara em Gênesis 2:25: “E ambos estavam
nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam”. Essa talvez seja
uma das descrições mais profundas sobre intimidade em toda a Escritura. Deus
não está apenas descrevendo ausência de roupas. Deus está revelando ausência de
máscaras. Ausência de mecanismos de defesa. Ausência de personagens, de versões
editadas. Adão e Eva não tinham nada para esconder porque ainda não existia
medo. Não existia comparação. Não existia culpa, nem rejeição. Eles podiam ser
vistos por completo e, mesmo assim, permaneciam em segurança.
Esse sempre foi o projeto
de Deus para o casamento. Não um palco onde duas pessoas representam aquilo que
gostariam de ser, mas um abrigo onde duas almas podem ser exatamente quem são.
Mas então o pecado
entrou. E a primeira reação do homem não foi lutar, não foi argumentar, não foi
confrontar. A primeira reação foi se esconder. Em Genesis 3:10, Adão diz: “Tive
medo, porque estava nu, e escondi-me”. Perceba isso. O pecado não
destruiu apenas a santidade. O pecado feriu a intimidade. O medo entrou onde
antes havia transparência. A vergonha entrou onde antes havia liberdade. O
esconderijo entrou onde antes havia confiança.
E, se formos honestos,
muitos casamentos continuam vivendo em Gênesis 3. Pessoas escondidas atrás de
sorrisos, atrás de força aparente, atrás de respostas automáticas de “está
tudo bem”, quando claramente não está. Pessoas que aprenderam, ao longo da
vida, que mostrar fragilidade é perigoso. Que revelar dores pode gerar
rejeição. Que abrir o coração pode produzir abandono. Então constroem muros. E
o problema dos muros é que eles não impedem apenas a dor de entrar. Eles também
impedem o amor de alcançar.
Há casais que conhecem o
toque, mas nunca conheceram as feridas um do outro. Sabem como provocar prazer,
mas não sabem identificar lágrimas silenciosas. Sabem quando o cônjuge está
cansado fisicamente, mas não percebem quando ele está quebrado por dentro. Isso
não é intimidade. Isso é convivência.
“Levai as cargas uns dos
outros” (Gálatas 6:2). Cargas não são carregadas à distância. Cargas não são
compartilhadas com máscaras. Cargas só podem ser divididas quando alguém tem
coragem de dizer “eu não estou bem”.
A verdadeira intimidade
nasce quando alguém encontra segurança para mostrar não apenas suas virtudes,
mas também suas cicatrizes. Quando pode confessar medos sem ser julgado. Quando
pode revelar fraquezas sem ser diminuído. Quando pode mostrar lágrimas sem
precisar se explicar.
O casamento nunca foi
criado para ser um lugar de performance. Foi criado para ser um lugar de cura.
E talvez uma das experiências mais restauradoras que um ser humano pode viver
seja esta: ser completamente conhecido e, ainda assim, profundamente amado.
Isso é Éden restaurado pela graça de Cristo. Isso é intimidade. Isso é aliança. Isso é o casamento como Deus sempre sonhou.
Pr. Rodrigo Deiró


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