Sobrevivendo ao veneno
Há cenas da Bíblia que
carregam mais verdade do que muitos sermões inteiros, e uma delas está
registrada no livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 28. O apóstolo Paulo havia
acabado de sobreviver a um naufrágio. Já seria natural imaginar que, depois de
enfrentar o mar, a tempestade, o frio, a exaustão e a incerteza, Deus
finalmente lhe daria descanso. Mas a vida com Deus nem sempre funciona segundo
a lógica humana. O texto diz que enquanto Paulo ajuntava um feixe de gravetos e
o colocava no fogo, “uma víbora, fugindo do calor, lhe acometeu a mão”.
Não foi enquanto ele estava parado. Não foi enquanto reclamava. Não foi
enquanto desistia. Foi enquanto servia.
Isso, por si só, já
confronta muita coisa dentro de nós. Porque existe gente que pensa que
fidelidade é um seguro contra sofrimento. Existe gente que imagina que, por
andar com Deus, nunca será tocada por dor, traição, injustiça ou ataques
inesperados. Mas Paulo nos ensina algo poderoso. A serpente pode até alcançar a
mão de quem serve, mas nunca determinará o destino de quem foi separado por
Deus.
E perceba algo que o
texto não diz. O texto não diz que a picada não doeu. O texto não diz que Paulo
não sentiu a presa entrando na carne, que não houve ardor, pressão ou
desconforto. Deus não impediu a picada. Deus não anulou a dor do momento. Deus
não congelou a boca da serpente. Mas Deus impediu o efeito final do veneno. E
aqui existe uma verdade que precisa entrar fundo no seu espírito. Nem tudo
aquilo que te fere recebeu autorização para te destruir.
Os moradores daquele
lugar olharam para Paulo e fizeram o que muita gente ainda faz conosco. Tiraram
conclusões precipitadas. O texto diz que eles esperavam que ele inchasse ou
caísse morto de repente. Em outras palavras, havia gente aguardando o desfecho
da tragédia. Havia gente observando para ver o colapso. Havia gente apostando
no fim. Porque o mundo conhece a lógica do veneno, mas não entende a lógica da
proteção divina.
Consigo imaginar Paulo
olhando para aquela serpente presa em sua mão, sentindo a dor da mordida,
percebendo os olhos de todos sobre ele, e ainda assim sem entrar em pânico. A
Bíblia diz apenas que ele, “sacudindo o réptil no fogo, não padeceu
nenhum mal”. Que cena poderosa. Ele não fez discurso. Não discutiu com
a serpente. Não correu atrás de aprovação humana. Não explicou nada para a
multidão. Ele simplesmente sacudiu no fogo aquilo que tentou se prender a ele.
Há coisas que você não
vence explicando. Há feridas que você não supera entendendo. Há ataques que
você não derrota reclamando. Há venenos que só perdem a força quando são
lançados no fogo da presença de Deus.
Talvez você esteja
vivendo exatamente isso hoje. A picada de uma traição. A picada de uma palavra
dura. A picada de uma perda inesperada. A picada de uma injustiça silenciosa. A
picada de uma batalha interna que ninguém vê. E dói. A fé verdadeira nunca negou
a existência da dor. Mas a fé declara que dor não é sentença.
O mesmo Deus que não
impediu Paulo de ser ferido foi o Deus que não permitiu que ele fosse vencido.
O mesmo Deus que permitiu a luta foi o Deus que cancelou o efeito do veneno. E
se a mão de Deus continua sobre a sua vida, aquilo que parecia sentença será
testemunho, aquilo que parecia funeral será plataforma, aquilo que parecia fim
será apenas mais uma prova de que quem foi marcado pela graça pode até sentir a
picada…, mas nunca morrerá pelo veneno.
Pr. Rodrigo Deiró


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